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5 de out de 2014

Comme il faut

Encosto a cabeça no travesseiro, acendo a luz do abajur, espero o cão acomodar o sono no almofadão, apago a luz e num suspiro lanço um sorriso no escuro.

Tudo está no seu lugar! A casa prendeu o botão, o chão foi varrido das sujeiras acumuladas nesses três dias de ausência. Limpou-se o vômito do gato guloso que roeu a embalagem de ração. O susto com o cheiro da comida azeda do cão passou depois que ele encheu a pança, avidamente, com sardinha misturada com farinha de rosca(o que  a mãe da criatividade nos obriga a inventar!). A gata cirurgiada(se não existia isso passa a existir agora) saiu de seu triste isolamento na gaiola do veterinário, onde ficou por três noites, pobrezinha, para não apanhar do gato gulosão. Um pano molhado limpa mal e rapidamente a trilha onde passa o senhor bispo. 

Enquanto o filho avisa a esposa que chegamos depois de vencer um “puta engarrafamento” eu nem sei para que lado virar e dar conta de tantas coisas a fazer antes de considerar que este voltará a ser o meu ninho e de meus patudinhos.

Há menos de duas horas eu estava ansiosa esperando a liberação. Agora pareço uma faxineira cansada e mal treinada, contratada às pressas. Uma banana mastigada sem medo para que o vazio não cause nova crise(vade retro!). Lixo que foi largado no meio da pia, louça sem lavar nem guardar, chinelo atravessado no tapete, trapos e panos dos bichos esticados como bandeiras protestando contra o abandono. Nessas horas a lista de prioridades se define.

O primeiro a lançar sua incontida saudação foi o cão, que de repente descobriu que nada disso de abandono: Ela voltou!!!! Subir pelo ombro ou lamber o rosto? Oferecer a orelha ou deitar de barriguinha? Braços e abraços desenrolados e só depois de um banho purificador e simbólico eu me dou o direito de sentar e comer, decentemente, alguma coisa. Nada na geladeira que eu pudesse comer. CREMOSO, disse o poderoso doutor, separando as sílabas e VOLTE SEMPRE QUE QUISER, disse alto ao sair. Pelo menos temos humor.

Reconhecer a forma da cama, a textura da fronha, o cheirinho de suas roupas que nada tem de antisséptico, acomodar-se sem medo de cair da cama. Eu confesso, aquelas camas são altas demais, são estreitas demais. Cada vez que eu me viro nelas sinto o medo subir pelos quadris. Parece que meus joelhos vão crescendo e vou parecer batata podre caída no chão. Como dormir com aqueles travesseiros que escorregam debaixo de sua nuca, não param debaixo de sua orelha, não afundam com o peso de sua cabeça? Como dormir com aquela rotina de leva e traz coisas a cada quarto, a cada quarto de hora?

Agora tudo está no seu lugar. Reconheço o estado de graça por ter superado mais uma e estar em casa, saída de mais um pesadelo. Apenas quatorze dias depois de enterrar a mãe, saio à procura de socorro para ir ao hospital, dobrada de dores. Velhas inimigas desde a cirurgia em 2003. Aprendi a fingir que estou num teatro e que em breve a apresentação vai terminar. Não diminui a dor, mas ajuda na passagem dos dias, que deveriam ser dois e viraram três. Aprendi a fazer o que é possível a distância e deixar o resto para consertar, se possível. Isso mantém a pressão estável e não assusta o doutor.

Então, hoje estou em casa outra vez. Apago os dias que me tiraram daqui. O gato disputa uma ponta de cobertor(sim, voltamos aos 14 graus). O cachorrinho dorme cansado de esperar por mim e de barriguinha cheia. O cobertorzinho mal se mexe, tamanho o cansaço da espera. Resmungo baixinho, com a garganta ainda raspando por ter ficado três dias sem comer nem beber absolutamente necas: What a wonderful world e fecho os olhos. 

É preciso sempre reconhecer o estado de felicidade e aplicar o que repassei a uma das enfermeiras: encontre sempre um motivo por dia para comemorar.

VIVA! Estou em casa.

Hoje, um dia depois da volta, estico esse texto jackkerouackiano na telinha e encerro o capítulo.


Uma voz que vem do ombro esquerdo, cochicha debochada: Então, porque você não conseguiu dormir essa noite, hein espertinha?

9 comentários:

Justine disse...

Texto magnífico, Clarice! Catarse, ironia, bom-humor, distanciamento, lucidez, bonomia, alegria!
A casa só é o nosso mundo porque existe o mundo lá fora, a saúde só é valorizada quando estamos doentes, a felicidade só tem sentido porque existe a dor, a vida só tem sentido porque há a morte. Tudo é relativo, de tudo se pode tirar alguma alegria. Isto é o princípio da compreensão da vida, não é? E como tu a percebeste! Fico a admirar-te, para além do prazer que me dá ler os teus textos!
Um abraço apertado deste lado do oceano :-))))))

Clarice disse...

Justine, sou um bicho estranho. Consigo parar e ter consciência de quando estou bem, exatamente pelo contraditório, que ocorre muitas vezes independente de nossos cuidados. Sentir tudo ao seu redor e dentro de si, parece-me seja algo que tangencia a felicidade, que é estar e não ser. Detalhes fazem nosso tempo.

A casa deixa de ser um lugar,quando chegamos.

A indesejada das gentes, essa nos vem como fecho. No caso de minha mãe, quase um alívio, diante da situação.

Obrigada pela generosidade de teus comentários. Não só por tua formação acadêmica, mas pela comunhão de sentimentos.

Abraço grande.

Anônimo disse...

Continuo por aqui Clara querida; lendo seus textos, partilhando sentimentos e emoções.
Principalmente comprendendo-os visto que tambem sinto. Bjs LÊ.

Clarice disse...

Lê, obrigadíssima. Sito essa energia, com certeza.
Abraço grande.

Anônimo disse...

Beijo grande !!

Pitanga Doce disse...

Ai Clara, ando numa vida de vai e vem que nem no Pitanga tenho dito o que me vai. Ale´m do mais sempre que mudo o template, os blogs amigos somem e tempo para refazer não é grande. Chego aqui e te vejo envolta em uma confusão de sentimentos e uma ida ao hospital que levou mais tempo do que imaginavas. Só te digo que fiques quietinha até essa tormenta passar. A estadia em hospital deixa marcas. É um susto só. Fica bem e vai mostrando a Primavera na tua varanda.

beijos pitangueiros

São disse...

Parabéns pelo texto , que é muitíssimo bom.

Não soube de sua doença nem da morte de sua mãe(Luz para ela!), porque estive fora e regressei também com a saúde abalada(esperando eu que se fique por aqui mesmo quando a tosse se for).

Um fraterno abraço e que se recomponha rápida e definitivamente.

São disse...

Meu computador me diz que o anterior comentário não entrou , mas a experiência me diz que não é assim.

Se, por acaso, for, me avisa, ok?

Por sobre o oceano, beijinhos ,solidariedade e admiração :)

Clarice disse...

Pitanga, blog nem sempre é um "Querido diário", mas ajuda esse contato mesmo esporádico. Melhores dias para todos!
Abração primaveril.

São, está tudo aí, sim.
Obrigada pela solidariedade e melhoras. Gripe e tosse servem para fazer contagem regressiva.
Vai uma receita para tosse, que veio dos índios: pele dourada de cebolas. Se tiver casca de manga coloque junto. Como isso não tem goto, coloque canela ou gengibre.
Saúde!