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3 de out de 2013

De um cantinho bem guardado

- Foi ele!

Era  o dedo que apontava quem havia provocado, fez arte, interrompeu a brincadeira, roubou um pedaço de lanche. De repente a gargalhada. Aberta, franca. Esbudegada, como se dizia por lá.

Não sabia falar baixo. As professoras reclamavam. Eu, que tinha menos idade, passava por ele desconfiada, quieta, para não virar alvo de suas brincadeiras. Não, não eram maldosas, eram coisa de guri aprontão. Gurizão pra ser sincera. Gordinho, bem além de gordinho. Pesadão para a idade. Que idade? Talvez doze anos. Eu tinha talvez uns sete ou oito.

- Maximino, para com isso!

Ele sufocava o riso, mas os olhos brilhavam ainda por algum tempo. Suor escorrendo pela testa depois do recreio. Não sabia ficar quieto por muito tempo debaixo daqueles cabelos negros encaracolados.

Um dia os ouvidos captaram o motivo sussurrado dele ter desaparecido das brincadeiras. Um nome de doença impronunciável. Condenatória. Entre nossos dias de criança, de repente alguém comentava sobre o tratamento em São Paulo. Minha cabeça dizia que se foi pra tão longe era coisa ruim. Nunca tive coragem pra dizer o que pensava e a tristeza que sentia por ele. Pra ninguém. 

Então entrei na fila de alunos que foram se despedir de Maximino. Muita gente foi. A sala ficou pequena e passei mais rápido do que desejava. Queria ver para onde fora a alegria de Maximino, o olhar de Maximino. O suor de Maximino. O riso de Maximino.

Só vi a palidez. Só vi silêncio. Um silêncio de criança colhida cedo demais. Guardei as duas imagens dele. A que fora e a que sobrara. E silenciei a dor pela perda da alegria. 

De vez em quando remexo nessa lembrança. 
Adolescente, senti vontade de me aproximar dos pais dele e dizer o quanto eu sentia pela perda deles, mas minha timidez não me deixava ir além de encontrar nos olhos deles uma tristeza funda, escura, sem fim. Uma dor com segredos. Imagine a dor de um pai vir de São Paulo com o filho inerte e silente, deitado no banco de trás do carro, porque o dinheiro era quase nada, não dava pra pagar a coisa legal. Corpo coberto para o caso de a polícia, sabe lá no que daria. Assim voltou pra casa, Maximino.

Aqui essa dor de criança guardada por quase cinquenta anos. Quem tinha tempo pra ouvir uma criança sofrendo?

E finalmente vem o choro. Talvez por ele. Talvez por mim. Choro breve, para não apagar a gargalhada de Maximino.

8 comentários:

Van Gogh disse...

Bela crônica!

Clarice disse...

VG, às vezes remexer em cantinhos tem um preço, mas é como olhar uma cicatriz e fazer as pazes com ela.
Abraço e obrigada.

São disse...

Um texto que (me) comove.

Até porque também tive uma coleguinha de escola, cigana, que ao mergulhar do barco, bateu coma cabeça numa pedra e assim partiu.

De vez em quando também me lembro dela e da irmã.

Abraço grande

Van Gogh disse...

De cicatrizes eu entendo bem, tanto externas quanto internas.
Eu é que agradeço.
Abraço!

Clarice disse...

São, ao meu lado sentava Assunta, que também saiu da sala para não mais voltar. Ficou a imagem da menina calada e tímida.
Como as dores mais fortes duram, não é?
Abração.

VG, passado tem flores secas e fitas, mas entre elas também o que nos fez fortes e lutadores.
Abraço.

Justine disse...

Estória pungente, e muito bem escrita, Clarice!
Pedaços de vida que nos vão modelando...

Anônimo disse...

Que pena que não possamos nos encontrar; almas com coisas a dizer e escutar. Haveria tempo suficiente para tantas recordações ? Fica o vazio do que poderia ser. As vezes, mando mensagens telepáticas para vc acreditando que as recebeu. Quem sabe? Beijinhos LÊ

Dalva M. Ferreira disse...

Probleminhas ao acessar o google... mas vamos ver se agora vai.

Crônica perfeita, Clair, parabéns. O conteúdo tocante, a forma perfeita, sequinha do jeito que gostamos.