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16 de mai de 2013

Hora da verdade

Minha mãe vai morrer

Há uns dois meses coisas demais começaram a acontecer ao meu redor, enquanto meu corpo acusa o tempo e me castiga e transformaram minha mente numa sala de terapia. Balões de pensamentos insistentes ficam zoando, criando e trazendo memórias. Algumas boas outras cruéis. Muito cruéis.

Lembranças de ser obrigada a ir à igreja, de Natais, que salvaram muitos dias de minha infância. Da liberdade de brincar na rua, de jogar, de ter espaço e de permitir que outras pessoas nos dessem a atenção que ela não via como importante.

Importante era ter livros e ir ao catecismo.(Os livros salvaram minha vida e me ensinaram a sonhar e conquistar. O catecismo me declarou burra.)

Questionei, insistentemente, o quanto há de verdade, nisso de amar sem medidas uma mãe que nos colocava em fila e encarregava um dos filhos de buscar uma vara, com a qual nos batia mordendo os lábios, com força, com raiva, pelas travessuras infantis que fazíamos enquanto ela estava numa escola ensinando. Outras vezes era o chinelo, o cinto, a palma da mão, que, certeira, encontrava o rosto como resposta a uma pergunta inocente.

Questionei em madrugadas insones a falta de demonstrações de carinho. Não nos ensinou a sermos irmãos cúmplices, mas competidores.Nunca um elogio, nunca um abraço de chegada depois de meses de ausência. Nunca o desejo de boa viagem quando ia embora outra vez. Nunca um estímulo. Com muita sorte a mão no ombro no aniversário e um lembrete ao pai distraído. Lembro dos três presentes de aniversário que ganhei antes de sair de casa: uma anágua, uma caixa de sabonetes(que foram usados por ela) e uma sombrinha. Enquanto as caras linhas de bordar se multiplicavam na cesta.

Dar de comer, vestir e mandar para a escola teria sido suficiente. Se não fosse a necessidade de cobrar a vida que nos havia sido dada. Nessa cobrança a humilhação, a negação, o afastamento. Uma gravidez inteira sem uma carta, um telefonema, uma visita nas dezenas de vezes que fui hospitalizada. Porque eu havia rompido uma regra social idiota.

Passei semanas rememorando, selecionado para privilegiar bons momentos. Para justificar esse amor obrigatório. Não foi fácil. Um terapeuta ficaria maluco tentando remover as pedras que coloquei em redor do coração para reduzir as dores, as mágoas, as carências resolvidas em outros braços. 

Acordar no meio da noite e pensar que foi bom ter alguém para me dar um remedinho quando eu tive febre, lavar minha roupa, prover a comida, o estudo. Rapidinho vinha o contraponto da dor de ver a porta fechada tarde da noite, de castigo, no escuro, morrendo de medo, esperando o pai chegar pra contar que eu havia feito alguma travessura. 

Tudo era motivo de castigo. Centenas de linhas escritas: "Não vou mais desobedecer a mãe". A mão pequena e cansada secava as lágrimas. A outra cerrava o punho.


História Recente

Quando começou essa maratona para investigar o que significava uma manchinha no pâncreas de minha mãe, eu fui contra o estresse de correr atrás de exames, viagem a São Paulo, mais exames, médicos, médicos e médicos, viagens e mais viagens, mais estresse ao telefone, médicos, confronto de opiniões, brigas entre irmãos e por aí vai.

Com mais de 80 anos, se a descoberta ainda não cobrou seu preço, deixa quieto! Insisti e insisti, mas fui voto vencido. A velhinha foi jogada(literalmente até contra um poste por um incauto taxista), de um lado para outro e ela reclamava ao telefone:-Ah! O que tiver que acontecer, será!

Não contei a ela que depois de seis anestesias gerais aprendi que ao contar 10,9,8,...já era! Entra a escuridão e só se descobre que o dia é claro se a coisa for bem sucedida. 

A maioria venceu e hoje ela foi para a cirurgia, que revelou que o cansaço, a discussão, o estresse por conta de fazer ou não um exame apurado foi - permitam-me, por favor- uma bela merda! Abriram e fecharam a pele branca, intocada, murcha e delicada pela passagem dos anos.Apenas deixaram uma cicatriz. Não há o que fazer. O pontinho na verdade se revelou um órgão invadido e sem alternativas.

Ela tem, no máximo, dois meses para, quem sabe, sentir que a vida se vai aos poucos, ou alguma piedade do universo que a poupe de muita dor.

Ela é um ser humano e já perdoei muitas coisas, com certeza. Não me agrada ver ninguém sofrendo, principalmente quem me trouxe ao mundo, mas como negar que estou  num turbilhão por conta de lembranças tão contraditórias e fortes? A teoria me cobra amor incondicional. Eu não posso ser hipócrita. Nunca fomos amigas, nem cúmplices, nem  próximas, nem confidentes. Nunca conseguimos conversar como mãe e filha. Nunca. 

Lembro com frequência, que enquanto velávamos nosso pai em 2001, ela se aproximou com lágrimas nos olhos, colocou a mão no meu braço e me pediu perdão por ele numa frase inacabada :" Se teve alguma coisa que...". 

É uma desgraça ter uma memória privilegiada, fotográfica, como a minha.

E no final dos finais, como aconteceu quando meu pai morreu, caberá à filha renegada providenciar o descanso final e tudo o que cerca essa etapa.

Eu me sinto órfã, não é de agora, mas pensava ter mais algum tempo para perdoar tantas lembranças. 

Eu precisava colocar isso pra fora. Sim, publicamente, pra levantar algumas pedras.

8 comentários:

São disse...

Clarice, querida, tudo quanto aqui escreveste acerca de tua mãe eu assino por baixo relativamente à senhora que me pariu.

Para teres uma ideia, chorei imenso quando minha cadela dálmata morreu no pós-operatório, pela minha mãe não verti uma só lágrima.

Portanto, como vês, compreendo na perfeição o que sentes .

Abraço fraterno e apertado, com toda a solidariedade e muito carinho.

Pitanga Doce disse...

Querida Clara. Os irmãos deveriam ter ouvido o "se a descoberta ainda não cobrou seu preço, deixa quieto!"

Sabes que sei do que falas e nós "deixamos quieto" procurando apenas manter tudo o menos doloroso possível para todos, mas ainda assim foi... e será. Não há fórmulas escritas para se passar por essa fase, principalmente se ela vier cercada de "pedras" como dizes. A hipocrisia não faz parte do nosso dicionário e não se ama ou se perdoa alguém só porque tem um título que não pedimos. Eu nem sei se nessa hora saímos ganhando (se é possível)porque não se sofre tanto com a iminente perda. Por outro lado, se não há "pedras" podemos usufruir o que resta do convívio e dizer o que não foi dito e reafirmar o que já dissemos. Foi assim pra mim e desejava que fosse para ti também. Beijos, Clara. Fala quando quiseres. Publicamente ou não.

Susana (de Porto Alegre e depois de muito tempo sem lhe visitar por aqui) disse...

Resta saber que é uma fase como tantas fases da vida que já passaram.Não vai ser fácil, mas vai passar. Só tenho isso pra lhe dizer.

Anônimo disse...

Um texto triste meu amor; triste mais lindo. Uma alma sofrida carente e magoada que finalmente partilha com outras almas sofridas suas lembranças e tristezas.
Como sua mãe falaria se resolvesse recordar sua infancia, sua vida inteira ? Certamente seria tambem uma triste história.
Quem não as tem? MINHA MÃE MORREU EM 1993. Cuidei dela ate o fim e tratei dos funerais. Não sei se a perdoei mas honestamente tento. Tambem ela foi vítima de tanta coisa!! Como posso julgar ?
Estarei ao seu lado com amor e doação; eu e todas suas amigas que permanecem ao seu lado por já um bom tempo. Conte comigo LÊ

Dalva M. Ferreira disse...

Ô amada Clair... se for tudo mentira, belo texto, primorosamente escrito, de dar inveja a García Márquez. Se for tudo verdade, que pena eu sinto por aquela garotinha que sofreu tudo isso. Pais e mães deviam ter consciência do quanto eles são importantes, vitais, na vida dos filhos. Eles não têm uma noção do estrago que podem fazer na nossa alma.

Clarice disse...

Dalva, meu cérebro da voltas sem fim, tentando criar camadas que anulem memórias, mas você bem sabe que basta um solavanco como esse e temos que lidar com elas.
Não é ficção, mesmo que às vezes também me pareça.
Pais nunca acertam tudo, mas alguns erros tem um peso inimaginável.
Abraço e obrigada.

Justine disse...

Clarice, como eu consigo perceber bem tudo o que dizes. Também minha mãe foi uma mulher austera e pouco dada a carinho...mas há alturas em que pomos tudo em questão, não é?
Um abraço solidário!

Clarice disse...

Justine, este é o problema:colocamos em questão E a balança reclama.
Bjs