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4 de nov de 2011

A Mala

Meu pai tinha uma mala do tempo em que prestou serviço militar(lá pelos 1900 e poucos). De madeira. No centro da tampa uma plaquinha de metal com o nome dele. Nos cantos reforços de metal, que era melhor manter longe das canelas quando se carregava. (Essa da foto é igualzinha. Só falta a plaquinha com o nome.)
Eu olhava aquela mala e pensava em como deveria ter sido especial  para a família enorme e pobre arranjar uma mala que se prestasse ao que dela se pedia e, ainda mais, resistir até o término do serviço militar. Pois durou mais, muito mais que os dois anos de sabe-se lá que serviços além de cuidar do cavalo do comandante.
Entrou ano, saiu ano, nascidos os filhos todos, um belo dia aquela mala fez o trajeto que me levou ao internato, em 1965. 
A rotina de chegada consistia, entre outras coisas, em abrir a mala e colocar seu conteúdo, muito bem distribuído, primeiro sobre a cama (gente, quanta cama!) e depois no armário e criado mudo. A ordem era tanta que eu não sei como não desenvolvi  TOC.
Mas não pensem que foi só chegar, abrir a mala e descobrir o número de meu armário entre centenas. Não. Havia um cerimonial que servia para que as mais antigas moradoras descobrissem muita coisa sobre quem chegava. O conteúdo da mala dizia tudo.
Pois daquela vez quebraram a cara, porque eu apareci...com uma mala de madeira! Quem liga para o que tem dentro de uma mala de madeira? Elas perguntavam: Mas é de madeira mesmo? E batiam com os nós dos dedos para confirmar.
Qualquer novidade vira mofo depois de um tempo e ninguém mais ligava para a tal mala de madeira, que uma ou duas vezes por ano enchia a barriguinha e fazia o trajeto de volta para casa e de novo para o colégio. Ela sempre resistiu bem aos solavancos e curvas da antiga estrada entre Seara e Concórdia. Já havia resistido por décadas desde que meu pai a usara. Uns quilômetros a mais, ora quem se importa?
Até que chegou o dia em que a adolescente (tão tímida que morria de medo de chamar a atenção na rua, fosse por qual motivo fosse, mesmo por arrastar o calçado), virou atração na avenida, enquanto corria para a rodoviária, debaixo de um sol de rachar coco. Por causa da mala, claro.
Há coisas que morrem sem explicação e jamais saberei por que cargas d’água aquela mala tão bem fechada com trinco, tão leve das pouquíssimas roupas, tão bem segura pela alça de metal, simplesmente escancarou e desabou o conteúdo todo em plena calçada.
Em segundos que pareceram eternos e que eu jamais esquecerei, meus braços e mãos viraram geléia diante da tarefa de recolher meias bem enroladas, que sem grande esforço foram o mais longe  possível de mim. Sem falar daquelas roupas que jamais se mostra a ninguém, como um soutien, que estava tão escondidinho, um pacote de absorvente que aguardava para ser inaugurado, calcinhas... que horror!
Não. Ninguém me ajudou. Eu era só uma daquelas juvenistas de saia comprida, que havia deixado cair a roupa da mala. Uma adolescente como outra qualquer. Com uma diferença. Tinha uma mala de madeira, que agora carregava uma bagunça em seu interior. Pendurada na sua alça uma pessoa que quase flutuava de tanta vergonha, mas que ainda precisava correr para alcançar o único ônibus do dia.
No mundo da adolescência basta virar a esquina e o que passou, passou. Assim passaram-se anos, as malas agora eram maiores, de couro ou imitação e seguiam para os caminhos do Rio Grande do Sul, depois para o Paraná e, finalmente, para Floripa.
Passaram-se mais de 40 anos dessa vergonha indescritível, antes que eu contasse a história numa  reunião de família, depois de reencontrar a mala. Sim. Ela ainda existe. Agora como objeto de decoração, cheia de cacarecos. Longe de mim, mas fresquinha na minha memória. 

10 comentários:

São disse...

rrsss Porque será que essas tragédias acontecem sempre na hora mais imprópria e no sítio menos adequado?!


Venho deixar convite para ida lá a casa amanhã.

Serena noite desejo.

ONG ALERTA disse...

Que história de vida...beijo Lisette.

Pitanga Doce disse...

Mas que "mala", essa mala hein? Abrir, assim, sem um aviso nem nada! Agora me diz: o que te fez lembrar dessa história, hoje?

Isso me faz lembrar que daqui a pouco vou buscar o rapaz no aeroporto e ele vem cheeeeeio de malas. Ta´começando a trazer a mudança. heheh

Boa noite, Clara. Ventinho fresco!

Leika Horii disse...

Lindo post~!
Como uma mala de madeira pode ser leve?
Nunca vi uma mala de madeira. =/

Anônimo disse...

Que posso dizer? Mais do que a mala, valeu para mim seu relato, uma lembrança so sua, guardada no coração. Algo sagrado, uma confidência que partilhou com as amigas, um pedacinho de vc. FIQUEI EMOCIONADA.
Posso sentir ou imaginar o que sentiu no dia que a mala abriu.
Todas temos lembranças não é ? Como seria bom se pudessemos esquecer a vergonha e abrir o coração partilhando-as.
Beijos querida e bfs. Adorei sua mala. Lê

neu disse...

Vou choraaaaaarrrrr!

Clarice disse...

São, quando essas coisa acontecem tem uma importância enorme. Depois viram piada.
Beijos e boa semana.

Lisete, uma entre tantas, minha cara!
Abração e aproveite bem a semana.

Pitanga, era uma história guardada e liberada agora que o ambiente tem mais quatro patinhas.
Aqui clima primaveril, enfim. Os bentevis anunciam chuva desde cedo.
beijo e curta o filhão que retorna.

Lê, o que pra nós pode ser um fato embaraçoso mais tarde vira risadas. Adolescência é um período em que tudo toma uma dimensão exagerada.
Beijo, bela e faça sua semana alegre.

Neu, se você chorar eu vou rir!
Abração e boa semana.

Justine disse...

Como alguns objectos são importantes na nossa vida! Sem essa mala não teria o privilégio de me deliciar com a tua história:))))

Dalva Maria Ferreira disse...

Muito bonito e muito bem escrito. Parabéns!

Clarice disse...

Justine,passados todos eses anos eu ainda consigo me colocar naquela rua. Fotografei na memória.
O tempo transforma a vergonha em piada, não?
Abração.

Dalva, contado ao vivo com algumas frases em italiano provocou muitas risadas. Mas no dia foi de doer.
Abraço.