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15 de ago de 2011

"Beijou sua mulher como se fosse a única..."

Pela manhã eles chegam quase em silêncio. Aí começa a batucada de martelos, a serra dá seus agudos enquanto acerta alguma tábua ou tijolo. Palavras poucas, que a hora não entusiasma a muitos diálogos.

À tarde ataco o teclado. Impossível não ouvir a conversa que permeia aquele trabalho de construção, que parece brincadeira de montar gigante. Já estão subindo paredes e pilares.

Às vezes ouço alguma piada ou brincadeira entre esses senhores e rapazes. Nada indecoroso, nada agressivo. Há risos de vez em quando de um que troça de outro, nada demais. Imagino que já repararam que há pessoas que moram ao lado da construção e colocam algum limite enquanto trabalham. 

De vez em quando sobe uma conversa que rouba minha atenção. Colhi duas pérolas, que entrego ao ouvido de vocês.

Primeiro diálogo(Junho de 2011)

- Tô guardando um dinheirinho.
- É?
- Tô pensando em ir pra casa. Porto Alegre.
- E vai mesmo?
- , claro! Quero as criança.
- .....
- Pelo menos tô pensando em i. Acho que consigo i no final do ano, quem sabe no Natal, né?

(A essa altura não resisti e fui até a janela. O que guardava o dinheiro para ver os filhos dali a seis meses era um rapaz de uns 30 anos, magérrimo, que falava entre uma baforada e outra do cigarro, apoiado na pá, que já havia deslocado uma tonelada de areia, no mínimo.)

- E tu acha que vale a pena trabalhá assim longe deles?
- Vale, sim! Que eu posso umas coisa boa pra eles, pelo menos uma veis por ano, né?
E completa:
- Mas tenho que pelo menos duas veis por ano, que ficá longe dá muita saudade, né? Da mulher também. Mas os filho?  Eles cresce muito depressa. Tem que ficá perto um tempo.

O outro dá um longo suspiro. Eu suspiro junto e me afasto da janela com um nó na garganta, imaginando essa rotina pesada, acrescida da distância da família. E no que deve sentir quem está em Porto Alegre.


Segundo diálogo(Sexta-feira, 29 de Julho 2011)
Pela conversa, descubro que, desde que começou essa construção, eles não vão trabalhar no sábado pela manhã.Ufa! Quase dou pulinhos de alegria, mas pelo desenrolar da conversa, ainda bem que não levantei da cadeira.

- Cara, de folga amanhã! Nem te conto!
- Pois é. Nem quero hora pra levantá.
- Mais eu não quero nem sabê. Amanhã é dia de banho com a mulher.
Todos dão uma gargalhada.
-Banho, é?
- É, de chuveiro. Não abro mão, cara. Tem que tomá banho com a mulher todo fim de semana. Quem nunca exprimentô não sabé o que é.
Os risos já ficam mais fracos. Pensei que viria alguma piada mais pesada, mas afinal era a mulher do amigo. Muito respeito.
Ele completa:
- Tem que tirá o cimento da semana.
uma caprichada na limpeza, né?
Acertá o reboco!!!
- Casamento é isso! Tem que fazê o que é do gosto e agradá a mulhé.

E todos se calam. Cada um pensando sabe-se lá o quê!

Quem precisa de Marthas?

7 comentários:

Justine disse...

Sabedoria popular, que tu tão bem reproduzes! E a sabedoria culta de Chico, que tão bem conhece a outra...
Muito bom!

Anelize disse...

Cada vem fico mais fã do seu jeitinho todo seu de escrever!
Ri sozinha na frente da tela e também fiquei com nó na garganta. Vc bem soube expressar-se no diálogo.
A Malu também já bateu um papinho com eles, acaso vc ñ ouviu daí?
E eu rubra de vergonha... rsrsrs
Ela gritava da sacada: titiu! titiu! E dizia algo q só ela pra entender. Eles amaram e se divertiram muito.
Realmente eles aprenderam a respeitar quem mora ao lado. São nossos vizinhos tbm, e sabe-se lá Deus por quanto tempo mais... rs
Bom, só passei pra dizer q adorei e que adoro a sua forma de escrever.
Bjs

Clarice disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Isabel Maria Rosa Furtado Cabral Gomes da Costa disse...

Gostei dos diálogos. Sãso profundos e fizeram-me sorrir, duas qualidades notáveis, Querida Clarisse.
Um abraço.

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Gosto de ler, principalmente crônicas
nesse seu estilo. Vim aqui,por acaso,
Clarice. Vou voltar...
Um beijo
Lúcia

Clarice disse...

Isabel, essa sabedoria que vem da simplicidade sempre me encanta. Centenas de livros e resumiram de forma tão pura, não é?
Beijão.

Lúcia, prazer em receber você aí do lado de cima do mapa!
Coloque sua cadeirinha e vamos aos nossos papos. Passei rapidamente pelo seu blog para pendurá-lo na minha lista. Voltarei pois aquele baú me deixou doidinha de curiosidade.
Abraço.

Clarice disse...

Justine, quando vejo esses caras que pegam no pesado, não resisto a imaginar de que são feitas suas vidas, suas horas de folga, como lidam com o que chamamos de comum. E são eles que nos colocam um teto sobre a cabeça, que levantam catedrais.
Essas conversas me deixaram meio atônita. Pelo drama e pela sabedoria.
Abraço.

Ane, essa eu perdi. Talvez eu estivesse fora de casa. Mas pelo andar da carruagem teremos conversas do tipo por mais uns 2 anos,rs.
Obrigada pelo incentivo.
Beijocas.