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10 de fev de 2011

Testamento de um mendigo

Não gosta de poesia? Mas não é uma poesia. É um testamento

TESTAMENTO DO MENDIGO
URBANO REIS
Agora, no fim da vida
Como mendigo que sou,
Me sinto preocupado,
Intrigado e num momento
Me pergunto, embaraçado,
Se faço ou não testamento.
Não tendo, como não tenho
E nunca tive ninguém,
Pra quem é que eu vou deixar
Tudo o que eu tenho: os meus bens?

Pra quem é que vou deixar,
Se fizer um testamento,
Minhas calças remendadas,
O meu céu, minhas estrelas,
Que não me canso de vê-las
Quando ao relento deitado
Deixo o olhar perdido,
Distante, no firmamento?

Se eu fizer um testamento
Pra quem é que vou deixar
Minha camisa rasgada,
As águas dos rios, dos lagos,
Águas correntes, paradas,
Onde às vezes tomo banho?

Pra quem é que vou deixar,
Se fizer um testamento,
Vagalumes que
em rebanhos
Cercam
meu corpo de noite,
Quando o verão é chegado?

Se eu fizer um testamento
Pra quem vou deixar,
Mendigo assim como sou,
Todo o ouro que me dá
O sol que vejo nascer
Quando acordo na alvorada?
O sol que seca meu corpo
Que o orvalho da madrugada
Com sua carícia molhou?

Pra quem é que vou deixar,
Se fizer um testamento,
Os meus bandos de pardais,
Que ao entardecer, nas árvores,
Brincando de esconde-esconde,
Procuram se divertir?

Pra quem é que eu vou deixar
Estas folhas de jornais
Que uso para me cobrir?

Se eu fizer um testamento
Pra quem é que eu vou deixar
Meu chapéu todo amassado
Onde escuto o tilintar
Das moedas que me dão,
Os que têm a alma boa,
Os que têm bom coração?

E antes que a vida me largue,
Pra quem é que eu vou deixar
O grande estoque que tenho
Das palavras "Deus lhe pague"?

Pra quem é que eu vou deixar,
Se fizer um testamento,
Todas as folhas de outono
Que trazidas pelo vento
Vêm meus pés atapetar?

Se eu fizer um testamento
Pra quem é que vou deixar
Minhas sandálias furadas,
Que pisaram mil caminhos,
Cheias dos pós das estradas,
Estradas por onde andei
Em andanças vagabundas?

Pra quem é que eu vou deixar
Minhas saudades profundas
Dos sonhos que não sonhei?

Pra quem eu vou deixar,
Se fizer um testamento,
Os bancos dos meus jardins,
Onde durmo e onde acordo
Entre rosas e jasmins?

Pra quem é que vou deixar,
Todos os raios de luar
Que beijam minhas mãos
Quando num canto de rua
Eu as ergo em oração?

Se eu fizer um testamento
Pra quem é que vou deixar
Meu cajado, meu farnel,
e a marca deste beijo
Que uma criança deixou
Em meu rosto perguntando
se eu era Papai Noel?

Pra quem é que eu vou deixar,
Se fizer um testamento,
Este pedaço de trapo
Que no lixo eu encontrei
E que transformei
em lenço
Para
enxugar minhas lágrimas
quando fingi que chorei?

Se eu fizer um testamento...

Testamento não farei!
Sem nenhum papel passado,
Que papéis eu não ligo,
Agora estou resolvido:
O que tenho deixarei,
Na situação em que estou,
Pra qualquer outro mendigo,
Rogando a Deus que o faça,
Depois que eu tiver morrido,
Ser tão feliz quanto eu sou.


aqui você lê a réplica a essa lindeza. Não deixe de ler.

10 comentários:

AVOGI disse...

imagem chocante mas real, Clarisse por aqui tb há sem abrigo e cada vez amsi pois v~em de paises de leste na mira de trabalho e nao encontram nada
kis :=(

Anônimo disse...

Muito bonito querida!
Beijinhos lÊ

Leika Horii disse...

Hoje mesmo conversava com uma amiga que fez um mochilão, pegando carona, dormindo de favor. Senti inveja de seu espírito livre e desapegado.

Clarice disse...

Avogi,que falta faz um tempo para ler o texto!

Lê, na verdade só levamos o que não temos e deixamos o que nunca tivemos, não é?
Beijão e boa semana.

Leika, confesso que essa coceirinha já me tentou, mas avaliei os riscos e acho que a cautela prevaleceu sobre o espírito livre. Corajosa tua amiga, viu?
Beijos.

ManDrag disse...

O testamento do mendigo será sempre dirigido ao mundo.
Esses tesouros de estrelas e liberdade pouco lirismo têm quando a fome rói o estômago e o frio gela os dedos imundos de abandono. Quando a chuva chega fria e engripante ela não inspira danças e a felicidade tem máscara de pneumonia nunca tratada.
As dores da vida não são lirismo de tela cinéfila.

Abraço solidário

Clarice disse...

Mandrag, um prisma distribui suas cores dependendo do foco e da direção da luz. O amor também machuca e inspira.
Isso não é uma elegi à miséria. É um escancaramento sobre o que não precisamos.
A fome eu sei o que é. Falar dela não a minora.

São disse...

Gostei muito, mas mesmo muito, de ambos os textos.
Um abraço

Clarice disse...

São, ninguém deseja o sofrimento dessa gente, mas é uma lição de despreendimento.
Abração.

W.Henrique disse...

"Quem eu leio" - "Quem me lê". Estou fora desta listagem mas é explicável. Não sou muito de postar comentários mas garanto que LEIO sim o teu bloguinho quase todos os dias. Apenas para que não fiques pensando que ignoro o teu blog que, para mim é, sem dúvida, um instrumento maravilhoso de lazer e de informação. Falei ?

Um beijo

W.Henrique

Clarice disse...

Waldemar, seguiu mensagem. A lista de leitores e lidos é só de blogs. Entre para o quadro de seguidores. Aliás, teu nome aparece tanto no meu bloguinho, que daqui a pouco vou ter que pagar royalties.
Abraço e obrigada pela companhia.