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4 de jun de 2010

Cicatrizes no coração

Primeiro chegou Sacha, que me ensinou por 11 anos e em 2003 virou estrela.

Foi quem ajudou a criar e ensinar Pipoca. Que também virou estrela em 2008.

Quando Sacha virou estrela buscamos o casal inseparável de irmãos: 
Penélope


e Orfeu.

 
Então vimos Bambina em 2004, abandonada no pátio do prédio. Virou estrela em 2009.


Eles aprenderam a conviver  respeitando as diferenças.

Mesmo depois da chegada de Sunshine. Mesmo depois da partida de Pipoca e Bambina.


Há uma semana Orfeu foi diagnosticado com cardiomiopatia e deficiência respiratória muito graves. Todos os exames e tratamentos disponíveis nesses 5 dias. Depois de sobreviver a 7 cirurgias, incontáveis enemas e deficiência renal.  Centenas de quilômetros de idas e voltas do veterinário.

Com apenas 6 anos e meio esse guerreiro passa por tudo isso sem deixar de ser doce, generoso, brincalhão, surpreendente(avisava quanda a distraída esquecia panelas no fogo), reclamão, dengoso. Quando se sentia bem era um rei. O bonitão. Posudo, elegante, mesmo com a perna repuxada por ossos soldados em lugar errado. Sempre foi difícil desconfiar que havia algo errado com ele, porque sempre se mostrou especial, resistente. Resignado.

Hoje, sexta-feira, parece que está desistindo devagar. Apagando sua chama devagarzinho.

Eu havia decidido não passar por isso outra vez. Desta vez eu guardaria essa experiência só para mim. Por que esse gato sempre foi especial. Do tipo que brincava com o cãozinho atrevido. Que respondia com miados às minhas perguntas idiotas. Que provocava a brincadeira. Reclamava carinho.Mas lições não podem carregar egoísmo. Só por isso eu compartilho, não a dor dele, mas mais uma lição que acaba de acontecer.


Orfeu repousa há horas, negando-se a comer, a beber, a sair de debaixo do cobertor. Resiste calmamente e sem queixas, enquanto vai apagando devagar. Pela manhã ele quis sentar na cadeira que sempre usou para dormir e que está agora no terraço. Eu o coloquei debaixo do cobertor e ele ficou olhando a chuva, as plantinhas que vivia roendo. Mesmo as que eu não plantei pra ele. Depois entrou, assustado com foguetes. Pediu cama e está ali até agora.

Entrei no quarto pela centésima vez e encontrei a  irmãzinha peralta enfiada debaixo do cobertor. Grudada nele. Sunshine se aproxima para ver o que acontecia e eu resolvi registrar o que talvez sejam as últimas imagens deles juntos.
Assim que viu o cãozinho, companheiro de brincadeiras, estendeu a pata. Quem explica isso?

Daqui para frente não há muito o que dizer. Os três dormem sobre minha cama. Já cumpriram o ritual. Até os próximos passos. Que terão que ser meus.

18 comentários:

Ângela disse...

Estou lendo emocionada, eu conheci esse gato lindo e ele é tudo isso que você descreveu, fica bem amiga e muita força!!

Beijos carinhosos.

novavidanovelhomundo disse...

Fico de coracão partido lendo tudo isso...
Tive um gatinho que também teve problemas (foi atropelado e passou 6 horas debaixo de uma tampa de boeiro aos 6 meses de idade) e perdeu o movimento das patas traseiras. Depois de zilhões de exames, remédios e fisioterapia que minha irmã fazia, passou anos manquinho, sem perder a ternura. Respondia quando chamávamos, protegia nosso outro gato conquistava qualquer um que estivesse de visita. Em 2008 viajamos por 2 semanas e ele teve uma recaída..acabou por "virar estrela".
Acho que o que a gente pode fazer é aprender com a garra desses pequenos, o companheirismo e o entendimento (e respeito!) que eles têm do ciclo da vida.
Com esse amor que tu mostra por eles, tenho certeza que são gatinhos privilegiados!
Beijos e forca (com cedilha!!)!!

W.Henrique disse...

Triste Clarice, muito triste. A certeza que tens de ter dado todo o amor e carinho possiveis a estes bichinhos são a garantia de conformação. Pena que esses companheiros durem tão pouco tempo. Tempo suficiente para, ao partirem , deixarem uma lacuna imensa no nosso coração.

Um abração de pura conformação.

W.Henrique

ManDrag disse...

A minha sentida solidariedade Clarice!

Entendo o que sentes. Durante anos tratei de dálmatas (a Leila e suas numerosas ninhadas) que muito me ensinaram sobre humildade e dedicação incondicional. Tratei dum gato (o Cid) que um dia entrou selvagem em minha casa e permaneceu anos até escolher de novo regressar para a sua vida errante fora de portas. Agora já não mais partilho a minha intimidade com animais, mas guardo muita saudade de todos esses companheiros fiéis.

Coragem, amiga!

Abraço

cleiammf disse...

Bugra,
Tô em lágrimas, muito triste por saber que o Orfeu se despede lentamente, preparando quem aprendeu a gostar dele.
Cada detalhe destes momentos são difíceis, não é mesmo?
Que bom que tu fez tudo por ele,com uma dedicação inexplicável aos olhos de muitos.
Com certeza os anjinhos do céu dos bichos continuarão cuidando dele muito bem.
Beijo grande.
Kika

Gloria disse...

Boa Noite Clarice.
Sabes que entendo sua dor e tristeza. Aproveita esses momentos e agradece ao Orfeu o tempo e o amor que ele dedicou a ti. Isso não pude fazer com a minha Deia e é isso o que mais doí em mim. Dê a ele um beijo por mim.Fique em paz.
Abraço grande.Gloria

Anonymous disse...

Que coisa triste querida. Fique com toda minha solidariedade e não se sinta sozinha neste momento. Afinal, para que servem os amigos?
A vida é uma sucessão de adeuses ate o nosso próprio adeus final.
Lamento não estar próxima de vc nesta hora e ajuda-la mais concretamente. Mas aqui estou.
Beijinho. Lê.

Clarice disse...

ÂNGELA, obrigada pelo carinho, que eu farei chegar até ele também.
Aqueles olhos verdes sempre conquistam.
Abração.


MARIEL, chega um ponto em que gateiros descobrem as diferenças de miados e podem responder de modo apropriado. Isto vira conversa com gato.
Esse é muito especial Do tipo que faz expressões quando olha pra mim.
Vai ficar mais algum tempo por aqui, depois irá fazer companhia aos seus amigos.
Quem ama bichos capta a dureza da separação.
Obrigada pela força com ç.

W.HENRIQUE, eu mal tive tempo de recuperar da partida dos outros dois. Deve ser para enrijecer meu coração para poder resistir. Ele continua a dar lições, de calma, de paciência comigo por não conseguir interpretar como se sente. Nem sei se faço o possível, mas o que está ao meu alcance, com certeza.
Beijos e obrigada pelo abraço de urso.

MANDRAG, quem nunca teve animal de estimação fica tentando entender porque seres adultos desabam quando perdem algum.Recebo tua solidariedade com muito apreço, porque vem de alguém que possivelmente tem até mais cicatrizes do que eu. Isso me ajuda a aceitar melhor, embora não minimize a dor. Ajuda muito.
Obrigada.

KICA, minha cara já parece um pão de tanto chorar, porque foi tão inesperado. Ele escondeu tão bem o que sentia que só se notou quando pediu colo e reparei que a respiração estava curtinha, difícil
Ontem às 21:00 horas foi outra corrida em busca de alívio ou de ajuda para deixá-lo. Conseguimos uma medicação que está ajudando um pouco a respirar melhor. Eu sinto dores no peito e nas costas de tanto fazer esforço para respirar, como se isso o ajudasse.
Ele não resistirá muito tempo, mas enquanto continuar a olhar com aquele olhar de príncipe vou ajudar no que puder.
Beijo, irmã, e obrigada pela companhia.

GLORIA, já passei pela mesma situação que você com Sacha, que foi limpar os dentes e voltou sem vida. Também já tive que decidir se ajudava Bambina a descansar, pois eles merecem respeito e não dor. Pipoca se foi por doença e por descuido da veterinária. Eu acabava de sair do hospital e não pude fazer nada por ele.

Essa experiência com Orfeu é terrível, porque eu vi a transformação de um gato forte e guerreiro num inválido e olho centenas de vezes por dia pra ele, sabendo que um desses olhares vai encontrá-lo pior ou sem vida. Talvez eu precise dar descanso a ele.O que será também doloroso, apesar de piedoso.
Não sei o que é pior. Só sei que estou tocando a vida e fazendo o que posso pra fingir que está tudo bem.

Deia deve estar brincando com meus gatos também, a fofa.
Obrigada pelo carinho e fique bem.

LÊ, sabe aqueles dias em que você só quer encostar no ombro de alguém e chorar quietinha? É assim, minha bela. Você sabe como isso doi e receber ese carinho, que está bem perto, acredite, só me faz bem.
Beijos e mil obrigadas.

Pitanga Doce disse...

Clarice, vim trazer ombro e chocolate quente. Quer chorar, chora. Quer ficar em silêncio tá bem. Tô aqui. Eu e essa amigalhada toda aí em cima.

AVOGI disse...

clarisse manda pr´aqui um gatinho , eu ador gatos e adopto os que por aqui andam , os vadios que nao tem ninguém , mas esses sao lindos. kis

Clarice disse...

PITANGA, eu mantenho o racional e vou resitindo e tomando as providências. Segurando.
Aí, de repente, eu deixo o choro vir. É quando eu perco o controle sobre ele. Não tem mais hora nem lugar. Choro sem medida, sem censura, igual criança perdida. A cada palavra, a cada olhar, a cada visita ao veterinário, a cada seringa de comida que ponho na boca dele. Só não choro dormindo. E tenho dormido pouco.
Não é a comparação com o humano e animal que me regula. É saber que a dor virá ainda mais forte. Não há cura. Não há medicação. Mas nada pode ser feito enquanto ele demosntrar alguma resistência. Pelo menso o que me consola é que não há dor. Dificuldade para respirar, para subir degraus. Agonia. É o que está escrito na porta de meu apartamento. Eu olho para acara dele e sei que ele sabe o que acontece com ele e cxomigo. Nós sempre ns conectamos.Eu ia para o hospital; ele internava com problema parecido. É assim esse bicho.
Obrigada pelo ombro e apoio. Eu uso. Obrigada.

AVOGI, eram lindos os que se foram, é lindo o que está padecendo e serão lindos os que virão.
Fico contente ao saber que você adota os abandonados, como eu faço.
Abraço.

Pitanga Doce disse...

Clarice, beijinho.

Tozé Franco disse...

Viva.
Compreendo o que esta a passar, pois também o meu cão com mais de 15 anos está a passar pelo mesmo e com ele os donos.
Um abraço.

Tiago Medina disse...

Confesso que estava dando risadas no blog anterior, mas esse post me deu um aperto no peito.
Aceita um abraço forte virtual?

Clarice disse...

PITANGA, beijo recebido. Só pouso aqui raramente. sem disposição.
Muito sol pra você.

TONZÉ, parece doer mais em nós que neles, não é verdade?
Obrigada pela solidariedade e desejo que consigam ser fortes nos próximos tempos.
Abraço.

TIAGO, aceito e agradeço. O carinho recebido eu entregpo para o doente e companheiros.
Abraço.

São disse...

Minha querida Clarice, é tocante este teu testemunho.

Gatos sempre foram a minha perdição. Aliás, adoro felinos!

Sei a dor que foi e a saudade que é a transformação de Laís, minha dulcissima cadela dálmata, em estrela. Por isso te abraço fraternalmente .

Aqui te deixo festinhas ao doente e o meu apoio a ti.

Mari disse...

Ah, Clarice...Há um tempinho já não aparecia por aqui e não conhecia a sua paixão pelos gatinhos.

Tb tive um gatinho na minha infância e sinto muito a sua falta. Fica aqui a minha solidariedade em sentimentos e palavras.

Beijo grande

Clarice disse...

São, foi preciso passar por muita dor antes que se fosse. Isso é o que mais doi.
Beijos.

Mari, para quem nunca perdeu um bichinho pode parecer exagero, mas é um momento muito difícil.
Obrigada, obrigada, de coração.