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11 de mai de 2010

Substitutas de Mãe



Na quarta-feira que antecedeu o dia das mães foi o dia da funcionária doméstica, empregada doméstica, secretária para assuntos caseiros, pau pra toda obra, a que segura a vida de muita madame e garante a sanidade mental e física de metade da população urbana brasileira.

CAPÍTULO I
Desde muito cedo nossa mãe nos entregou a cuidadoras, arranjadas no interior do interior. Ela foi professora em tempo integral. Nós cinco chegamos com pouco mais de um ano de diferença, então para segurar os torpedos tinha que ter paciência de sobra, jeito com pirralhos e tempo para dar uma arrumadinha na casa, lavar a roupa, preparar almoço. Piedade! Morro de peninha delas todas que aguentaram mais de um ano.


As que marcaram de verdade foram as que nós devemos ter incomodado pacas!

CAPÍTULO II
A primeira da minha memória foi Marta. Eu talvez tivesse 3, 4 anos. Ela mais de 30? Magra, muito clara, quieta, discreta. Se precisasse definir essa mulher eu diria: doce, sofrida, doente, paciente, calada. Tinha ataques, não sei se do coração ou epiléticos.Acho que por conta deles foi devolvida sem retorno.


Juro que mesmo com 3 ou 4 anos, ainda trago dela a lembrança do colo e do sotaque alemão. Poucas e boas ela passou conosco.

CAPÍTULO III


Depois a irmã mais nova de meu pai, que morou conosco para poder estudar. Terá sido em 59,60? Divertida, amorosa, calorosa. Tinha orgulho de andar conosco. Olha ela na foto. Não é linda?

Banho, roupa limpa e toca até o fotógrafo! Ela nos queria registrados em foto(cadê aquela foto?). Eu a guardo no coração, Tia Olga! Depois que estudou até onde lhe permitiram, sempre nos acolhia com um sorriso de sol, na casa dos avós, em Caraíba.

Continua a mesma hoje em dia. Carrega sempre o sorriso. Tem agora acentos da vida no olhar, mas é o que qualquer pessoa pode chamar de abraço grande, pronto, generoso. Ainda nos vê como as filhas do Caetano e da Wilma. Orgulhosa por ter participado de nossa criação.

CAPÍTULO IV
Depois vem Jaci. Como esquecer aquela baixinha risonha, de fala chiada, que fazia bolachas?Acompanhava as canções do rádio e era uma alegria só. Tenho o rosto dela perfeitamente gravado, mas só lembro da moça de vestidos de pano barato, de olhos vivos, conversadeira. Um belo dia sumiu pra nunca mais.

CAPÍTULO V
Inês era uma moça que, se vivesse na cidade grande e fosse mais nova, seria modelo. Alta, enorme, magra como um espeto, ruiva de olhos verdes. A mais rude, a mais disciplinadora. Sem maldade. Até nos levava para banhos no rio perto de casa. Um rio fininho, manso em tempos de verão. Ela aceitava nossos risos por mal caber entre as pedras.

Quando limpava a casa criança não entrava nem se discutisse ou gritasse. A patroa tinha que ver quanto ela trabalhava, ora pois! Já não éramos mais tão pequenos e nosso argumento ensaiando prepotência era: "Nós somos os donos da casa. Tu não manda nada!" .
Não tenho certeza se deixou saudade.

CAPÍTULO IV
Elas sumiam. Felizmente não lembro das partidas. Mas essa angústia da perda, esse medo de rejeição deve ter uma raiz nessas perdas, na partida dessas que eram nossas cuidadoras. Ou será que nos acostumamos a vê-las partirem? Minha mãe jamais comentou se chorávamos ou se elas choraram. Nós não perguntamos por que partiam. Ia uma chegava outra. Que maneira de lidar com sentimentos infantis!

Um belo dia alguém resolveu que já estávamos do tamaho certo e nos largaram meio dia na escola e meio dia em casa. Precisaria de um livro para esmiuçar as consequências da presença e da ausência delas.

Por conta delas algumas surras memoráveis, nem sempre merecidas. Reclamação sempre acontecia quando a mãe chegava da escola. Por conta delas o aprendizado de dividir, de disputar a atenção, de esquecermos que existia uma mãe, de passagem de pessoas estranhas pela nossa vida. Estranhas até que nos pegassem no colo, até que nos estalassem um beijo na bochecha, ou até ensinarem que nada é para sempre.

Nós tivemos muita sorte, afinal,  por viver a infância onde e no tempo em que violência contra criança não era assunto para empregadas e babás, como hoje. Jamais qualquer uma delas nos deu sequer um merecido tapa no traseiro.


Por onde andarão essas pessoas?  Que terão feito da vida? O que a vida fez delas? Como elas se referiam a nós? Será que lembraram de nós por algum tempo e depois viramos esquecimento? Afora Tia Olga, que sabemos onde está, nem mesmo a certeza de saber se alguma delas ainda vive. 

Um pouco delas em nós sobrevive, com certeza.

A tela veio daqui.

9 comentários:

christiana disse...

Que memórias carinhosas, elas têm sorte de ser lembradas assim... e adorei a Tia Olga, linda mesmo.

Nossa, tenho tantas lembranças das abnegadas criaturas que trabalharam aqui em casa... era cada história de vida mais louca, um dia tenho que escrever, ou ver se a mâmi não se anima a assumir o relato.
Beijos.

Anonymous disse...

Que bem faz a alma começar o dia lendo um texto como este; esta homenagem trazida do passado e do fundo do seu coração traduz o quanto de generosidade e reconhecimento habita seu espírito.
Quase sempre, estas pessoas são ignoradas e toda sua dedicação nenhum valôr possue. No entanto, fazem parte de nós. Ninguem se acostuma com o trauma das perdas; cada uma delas é uma fração de nossas angústias. Cada pessoa não é apenas um vetor que atuou num determinado momento com uma determinada força e desapareceu. Cada uma delas está fundida numa resultante unica que somos nós. Somos a resultante de todas essas forças.

Tambem lembro da Zélia e da Denise. Fazem parte de mim. A Zélia sumiu, nunca mais soube dela. É provável que esteja morta mas a Denise sei onde está; falo com ela ao telefone. Está muito idosa mas feliz e mora em Marica.
Sinto muita saudade delas e sempre lembro de mencioná-las em minhas orações.
A tia Olga é linda e graças a Deus é uma parte do passado que ainda existe. Tomara que por bastante tempo.
Beijinhos LÊ.

Pitanga Doce disse...

Já estive aqui mas o blogger estava marado e apresentou aquele código bx não sei que lá.

Não tive babás que a minha mãe trabalhava em casa como costureira de alfaiate. Minha irmã ainda ajudou-a a chulear as bainhas que não época não havia máquina própria. Eu só ia levar as calças com a minha mãe para passear, que era a caçula.

Meus filhos também não tiveram porque eu também trabalhava em casa e olha que não era nesse tempo em que a babás dão porrada nas crianças quando querem, ou ficam a cantar aleluia o dia todo ou o que é pior, a rebolar funk. Pensam que a casa é delas.

As babás da tua época foram todas para as novelas da Globo, onde elas adoram os filhos da patroa.

Clarice, estes posts são lindos mas denunciam as nossas "avançadas" idade. hehehe

Bisous que hoje estou em Paris!

Clarice disse...

LÊ, que maravilha você continuar em contato com ela!
Eu lembro delas e de outras, mas essas as que mais marcaram e influenciaram.
Beijos leves.

PITANGA, olha a história dessa menina!

Ah, eu só me importo com a idade quando dizem que a pesquisa é destinada a outra faixa etária, hehehe.
Em Paris de verdade ou em pensamento? Voyez la lumière pour moi.
Je t'ambrasse.

Mila disse...

Ne m'ambrasse pas que je suis en Rio.

Será que ainda lembro????

Clarice disse...

Eh bien! Je te donne un ambrasse en portuguais, aussi.

Pitanga Doce disse...

Clarice, aujourd'hui j'écouté un déclaration d'amour en français.

Oh mon Dieu!

bisous

Clarice disse...

Pitanga, parlez plus avec ça.
Temos novidades sobre o Atlântico? Daqui pra lá ou de lá pra cá?
Beijos.

Pitanga Doce disse...

De lá pra cá, bela!