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21 de jul de 2009

Aprendendo a Dizer Adeus

Dengo, timidez e delicadeza em dose maciça. Suave como uma bailarina.

Tudo precisou ser ensinado, mesmo sendo adulta. Não sabia brincar. Pulava sobre os brinquedos como uma cabrinha, ou fugia deles, com medo.Tinha medo de tudo. De barulho, de vassoura, de voz alta. Adorava carinho, mas não teve tempo de aprender a gostar de colo. Todavia, jamais fez um gesto brusco para ser posta no chão.

Aprendi a reconhecer em cada miado um desejo, um protesto, uma manha. Com ela exercitei a delicadeza, a calma e também a impaciência com a mania de arrancar a pontinha de minhas folhagens.

Passos mansos carregavam um olhar azul de céu de verão. Disfarçava a magreza por baixo de uma fofura de pelos brancos.

Tão logo as noites ganhavam um pouco de calor insistia em dormir no terraço. Era preciso não esquecer de deixar uma fresta na porta, ou miava até me tirar da cama. Fez companhia à lua e estrelas em muitas e muitas noites.

Eu sempre desconfiei que tivesse sido vítima de agressões, porque fazia umas coisas esquisitas. Não bastasse o medo de vassoura, de vez em quando disparava pelo apartamento e se encontrasse a porta do terraço aberta, escalava a tela de proteção e subia até o telhado do prédio. Foi preciso inventar um jeito de parar com isso, porque como todo bom bichano era valente para subir, mas medrosa para descer.

Morou comigo desde dezembro de 2004. Perdeu Pipoca, seu companheiro de cobertor, em agosto do ano passado. Aninhou-se neste inverno com o casal de irmãos, que chegou aqui em 2003.

Então, com pequenos sinais, desde outubro de 2008, foi me preparando para a partida. Avisando que estava na hora de encerrar sua missão. Desdenhava comida. Dormia mais, muito mais do que dormem todos os gatos, ficou ainda mais pidona de carinho.

Há pouco mais de um mês parou de comer de vez. Em poucas semanas, apesar de receber soro, comida e água com seringa, foi definhando. O dia inteiro debaixo do cobertor, como uma velha senhora friorenta. A cada dia mais magrinha.

Tudo o que estava disponível na medicina veterinária foi usado. Todo o carinho. Toda a dedicação. Sem qualquer sinal de melhora. Seu corpinho cansou e desistiu. Já não comia nem bebia. Não conseguia manter-se em pé. Reclamava muito, mas miava cada vez menos. Mostrava sinais de dor, desconforto, cansaço.

Hoje fui vê-la bem cedo e decidi que era hora de ser generosa e retribuir o carinho com o descanso merecido. O fim da dor.

Um dia um amigo disse, a propósito de Sacha, que se foi em 2003, que se existe céu é só aquele dos bichinhos. É lá que minha “ballerina” está agora. Foi-se em paz eu acho.
Adeus e obrigada por me escolher para cuidar de ti, nessa tua tão curta vida, doce Bambina!

22 comentários:

Ângela disse...

Oie Clara

Força ...

Muito lindo tudo o que fez e continua fazendo para os bichanos...

Agora ela vai descansar!
Bjs não fique triste ;(
Linda homenagem para ela...

ângela

W.Henrique disse...

Oi Clarice

Fiquei emocionado com o teu depoimento. A história da Bambina se confunde com dezenas de outras histórinhas tristes que têm como protagonistas estes bichinhos que, com o tempo, tomam conta do nosso coração e ao partir levam consigo um pedacinho de nós. Quem já passou por isso sabe aquilatar bem esse momento de tristeza e de dor. Força, Clarice.

Um beijo

W.Henrique

Andréia disse...

Oi Dona Clarice!

Eu também estou muito triste, gostava bastante da Bambina...

Qualquer coisa nos ligue.

Fica com Deus.

Beijos.

Mauro Castro disse...

Que post triste...lamento, minha amiga.
A família Castro te manda abraços.

Pitanga Doce disse...

Clarice ela era muita linda sim senhora, mas sempre teve esse olhar tristinho, ou foi só agora na doença?

boa noite amiga

cleiammf disse...

Bambina! Delicada,gostosa,fofa, macia como um coelhinho, parecia cuidadosa para não fazer nada que fosse ser reprovado. Realmente, dava a impressão de andar nas nuvens de tão delicada, leve... e é assim flutuando que ela deve estar agora no céu dos bichinhos, junto com seus irmaõs Pipoca e Sasha e a prima Cherrye mais um montão de "novos amiguinhos".
Somo minhas lágrimas às tuas, minha irmã, porque eles fazem parte para sempre da vida da gente, não é?
Beijo na pontinha do coração.
Kika

Anonymous disse...

AH meu anjo, Lamento tanto!!!
Disso é feita a vida; princípio e fim. Vale para tudo e todos. Seja forte e conte comigo. BJ Lê

Clarice disse...

Ângela, vi teu recado ontem, mas era impossível eu escrever ou falar no assunto. Dor recente é bom tratar quietinha ou vira coisa pesada.
Obrigada pelo carinho que chegou rápido e me ajudou a encarar o dia.
Beijo.

W. Henrique, essa experiência é a quarta e nunca é menos importante ou menor a saudade pelo fato de ter passado por isso outras vezes.
Obrigada pela força que eu retribuo, por conta de Pietra e Bibi.
Abraço.

Andréia, com certeza eu sei o carinho que você sempre teve por ela. Era uma bichana especial mesmo.
Ainda vai doer, mas ajuda saber que pessoas como você sabem entender essa perda e entendem o quanto de carinho esses bichinhos conseguem passar.
Tem muito chororô ainda, mas os outros que se foram me ensinaram que aos poucos a dor fica menorzinha.
Obrigada, norinha. Abração para você e pro filhão.

Mauro, é complicado isso de perdr companheiros e você que já passou por situação igual sabe entender.
Obrigada pela solidariedade. Abraço à família com muito carinho.

Pitanga, era extremamente difícil fazer fotos com ela, tamanha a timidez. Só ergui aos olhos para choramingar peixe ou outra comida que eu estivesse preparando. De vez em quando ficava vesga e tinha um olhar manso, doce. Essa foto em que apercem os olhos foi a única em quase 5 anos que eu consegui.
Eu preferi não fotografar desde que ela ficou doente, porque era de dar dó, tadinha. definhou muito rápido.
Abração e boa noite também.

Kica, pode parecer para alguns que ora! era apenas um bicho!, mas era companheira e tão fofinha e doce que abriu um espaço enorme por aqui.
Mal superei a perda de Pipoca e ela também se foi.
Esses bichinhos arranham o coração quando chegam e quando partem.
Obrigada, irmã. Abração.

Lê minha querida, aqui em casa é choro a qualquer hora e eu ainda ouço os miados dela, que era a primeira a pedir para abrir a porta.
No final ela parecia pedir que a deixassem ir, de tão cansada e dolorida. Ekla foi muito amada e bem cuidada enquanto esteve comigo, mas não havia mais nada a fazer a não ser ajudá-la a partir.
Obrigada pelo carinho. Abração.

vidalinda disse...

Clarice
Essa cessação da vida da Bambina, como se fosse uma punhalada em vosso coração, reflete através de seus sentimentos, os nossos sentimentos, entrestecimento - a dor irreparavel da perda.
Graças a DEUS, somos dotados dessa sensibilidade, paixão, compreensão.
Chore mas pense que voce conquistou um espaçozinho no reino dos felinos..1000bjs no coração
JLM

Clarice disse...

Oi, João Luiz!
Bom receber você aqui com palavras tão certeiras e sensíveis.
Saudade de você, viu?

Benvindo ao mundo dos blogueiros!Passei na sua página, mas cheguei cedo demais e não havia texto ainda. Deixei minha trilha pra saber quando você vai postar.

Aos poucos a dor vai se acomodar. A vida exige um passo à frente, então, cuidamos dos outros, cuidamos de nós e a alegria há de voltar.
Abraço grande, amigo.

Claudete De Marco disse...

MINHA IRMÃ
FIQUEI LONGE DESTA MÁQUINA POR ALGUNS DIAS E SÓ AGORA VI QUE A BAMBINA SE FOI,É TRISTE COM ELA SE VAI UM POUCO DE QUEM A CUIDOU .ADOTAS-TE E DESTE CARINHO E CUIDADOS.MAS AS PALAVRAS AGORA POUCO AJUDAM.O IMPORTANTE É SABER QUE FIZESTE O POSSÍVEL POR ELA.UM ABRAÇO BEM APERTADO POIS SEI BEM O QUE É PERDER UM AMIGUINHO DÓI MUITO.UM BEIJO ATÉ.

São disse...

Nestes momentos assim tristes, fico sem grande jeito, porque sei por experiência própria dessa perda inconsolável...

Mas a beleza dela e a beleza de tuas palavras se merecem.

E agora está bem, liberta de dores e tristezas

Um apertado e cúmplice abraço, menina.

Clarice disse...

Dete, parece que ela tinha pressa de encontrar com Pipoca, seu companheiro de cobertor.
É tudo muito recente, foram-se dois em menos de um ano, mas aos poucos passa a ser um consolo ter a certeza de que realmente fizemos tudo por ela.
Abraço e até.

São, é justo dar a eles amor quando recebemos tanto. Esse apego é inevitável.
Obrigada pelas palavras carinhosas.
Abração.

Tiago Medina disse...

Certamente há um cantinho especial no céu para essas criaturinhas...
E lá tem uma cachorrinha minha já, mas às vezes me dá uma saudade...

boa (e gelada) semana

Clarice disse...

Tiago, não há dor que dure para sempre, mas saudade com certeza.
Abraço.

Anonymous disse...

Só uma pessoa com um coração do bem para escrever palavras lindas sobre um bichinho de estimação.

que posso querer para voce, (FORÇA).

Beijos

Nine Stecanella disse...

Sei bem quando meu gato foi embora de casa. Aí todo mundo vem com a máxima de quando eles sentem que vão morrer vão embora.

Verdinha disse...

fiquei com lagrimas nos olhos...

as x tudo o que podemos fazer para lhes retribuir o carinho e o amor, é deixa los partir sem dor e em paz..

um beijo

Plinio disse...

Li com interesse e emoção esse relato. E lembrei, igualmente com tristeza da Paquita, a cachorrinha lá de cada que viveu conosco por 18anos, que acompanhou o crescimento da minha filha mais nova e que chegou a brincar com a minha netinha e com outro dos meus filhos, que tem Síndrome de Down e a adorava. Quando ela se foi, foi uma choradeira geral.
Abraços

Clarice disse...

Anônimo, mesmo sem nome, o carinho chegou e fez bem. Obrigada.

Nine, obrigada pela passagem e comentários. No final ela já pedia, eu acho, para ajudá-la a partir. Sempre doi a separação.
Vou registrar para visitar você em breve.
Abraço.

Verdinha, você não é só bonita e essa sensibilidade a fazem ainda mais linda.
Obrigada pelo carinho.
Abreijo.

Plínio, pessoas como você serão sempre um presente por aqui.
Pode parecer exagero quando alguém chora por um animal, mas quem, como nós, os teve por perto, sabe as razões, não é? Esse carinho passado aos descendentes é a confirmação de que você é um ser humano muito bom.
Volte.
Um grande abraço.

Analu disse...

o.Oo fiquei deslumbrada com seu texto, a sensibilidade, o lirismo está explicito, é triste perder bichinhos, entes queridos, gatos e humanos. A delicadeza de seu texto demonstra ao meu modo de ver o carinho enorme que se tinha/tem por Bambina. Sua homenagem ficou muito bela “Dengo, timidez e delicadeza em dose maciça. Suave como uma bailarina.”
Um beijo enorme

Clarice disse...

Analu, ela continua fazendo falta, mas cumpriu seu papel.
Obrigada por ser tão amável.
Tenho passado em teu blog, mas andas sumida.
Beijos.