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1 de set de 2008

Uma dor de barriga

Eu soube que o apagão de meu cérebro não havia me afetado, pelo menos não até aquele momento, e não mais do que a minha quilometragem natural,quando em meio àquela escuridão e confusão ouvi:

-Segura pelos pés, que eu seguro pelos ombros e vamos colocar na maca!

Bips de monitores, mãos me segurando pelo pescoço para não me sufocar enquanto estava na cadeira de rodas(eu estava sendo empurrada por um labirinto, a caminho do toilete, quando apaguei).

Aí, glória das glórias,veio a prova da consciência plena. Alguém solta um apressado:

-Segura ela pela bunda!

Daquele jeito miserável em que eu estava: drogada de morfina contra a dor implacável, suja de meu vômito involuntário, sem poder me mexer, sem poder falar, abri os olhos e vi meia dúzia de uniformes azuis.

Só depois dessa pérola, alguém chamou meu nome, chamou, chamou e chamou, até que eu fizesse o que foi considerado uma cara suficientemente consciente.

Não respondi, mas estava sintonizada num programa de humor em minha mente. Eu sabia que ainda estava ali porque pensei: Eu ainda vou rir disso!

Essa risada demorou quatro dias. Quatro longos dias.

******************

Era domingo de madrugada quando tudo começou e a dor me venceu. Outra vez?
Enfiada às pressas no carro da vizinha, chefe da vigilância do bairro ao volante, disparamos rodovia afora, com pisca ligado, farol alto e eu a dizer: “Buzine, moço. Passe!”.

Chegamos, enfim. Entre um grito e um gemido, depois de perguntas e perguntas sem fim, apalpa daqui e aperta dali, a doce sensação de amortecimento. Enfim podia fechar os olhos e respirar. Bendito Dimorf!

Dois médicos depois e muito soro e injeção, a espera por vaga para exames, ainda na cama dura da emergência. Lá eles colocaram uma plaquinha dizendo "Repouso". Um eufemismo repousante, sem dúvida.

Cadê a carteirinha? Nem vou contar as duzentas vezes que respondi que ela estava vindo. Carteirinha nova esperando a data de validade, guardada aqui, numa gaveta a cinco centímetros de onde estou agora, mas a 50 quilômetros da clínica.

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Sabe aquela sensação de abandono, de não sei o que eu estou fazendo aqui, eu quero ir embora, este não é meu lugar e ai que dor? Pois é! Nem queira saber!

Hora em que é preciso tomar consciência da contingência humana, da pequenez, da dependência, da necessidade de aceitar, de sujeitar-se a, de ter infinita paciência com quem te atende; hora de fechar os olhos e ficar contente por saber-se atendida; hora de ter certeza de aquela dor, aquele monstro, apesar de tudo, era menor do que a que determinou uma cirurgia em 2003. I hope!
Continua daqui a pouco.

3 comentários:

tiago medina disse...

Desculpa a demora pra responder.
A Duda não voltou, mas não sei porquê, eu sei que ela tá bem...

Mauro Castro disse...

Nossa, Clarice, fiquei preocupado, guria! Espero que esteja tudo bem. E a Pipoca, hein, tadinha!

Clarice disse...

Tiago, tenho certeza de que ela está bem. Talvez tenha deixado um espaço para que vocês adotem outra. Quem sabe?
Abraço.

Mauro, de vez em quando levo umas bordoadas, mas agora já estou bem e querendo que nunca mais aconteça.
Obrigada pela força.
Abração.