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17 de set de 2008

Hora do pirão

Hoje foi dia de levar o elétrico e nada silencioso Sunshine para o banho. Na volta filho veio de carona. Nora vai colar grau e ele veio trazer o convite. Outras coisas a conversar. Semana de folga por conta de assiduidade.

O almoço com uma hora de atraso por causa do trânsito, posto à mesa em câmara rápida. Estômago meu lá no fundo, por conta de um shake engolido às sete horas da madrugada e nada mais além de uns goles de gelatina.

Um feijãozinho caprichado e preparado em porções gigantes em dias anteriores, mas só comido às colheradas diárias por mim. A contra-gosto, evidentemente. Que a vontade é encher o prato.

Ele prepara um pirão. Daqueles de fazer inveja a surfista. Generoso seria um deboche eufemístico. Eu espio com o canto do olho, satisfeita. Lá vai mais uma colherada de caldo como cobertura. Por cima um pedaço de carne de porco fervida com os grãos vermelhinhos e brancos. (Vermelhinhos daquele feijão de alta digestibilidade e brancos porque são mais leves que o preto. Nada a ver com colorados, não senhor, que eu sou azul.)

Depois vem o que ele chama de comida. Mais feijão, arroz e uns bifinhos preparados na hora, na chapa de ferro. Saladas sem pudor, que ele nunca renegou em toda a sua vida. Desde que não tenham cara de cenoura cozida ou de abóbora, todos os legumes e vegetais fazem sucesso desde sempre.

Num rápido intervalo entre uma colherada e outra, um assunto e outro, eu viajo para uns 45 anos atrás e me vejo à mesa, num dia de inverno, mochila da aula recém abandonada no quarto, fome sem tamanho e o mesmo cheiro que eu estava sentindo. Mesa cercada por cinco pirralhos, mãe e pai mal dando conta de servir e mandar calar a boca, que almoço não era hora de brigar.

Claro que ele não entende porque eu deixei escapar um gemido que parecia ser de cansaço. Não era. Era de puro prazer. Pela visita. Pela intimidade. Pelas lembranças. Pelo doce prazer de dividir a mesa com ele e repetir o que eu espero seja perpetuado.

Ser mãe não tem nada a ver com sofrer num paraíso. Tem a ver com momentos assim. Só quem come feijão junto é que sabe.

7 comentários:

Waldemar Henrique disse...

Clarice

Juro que eu não deveria ter lido o teu blog hoje. Que maldade !!! Para um cara que fez uma cirurgia de inserção de cinco pontes coronarianas e, logo em seguida, exatamente 58 dias depois, ter sido submetido a uma cirurgia de urgencia para a retirada de uma bendita vesícula quase supurada, para logo depois (e até hoje)ter que se sujeitar a uma dieta miserável, sem sal, sem gordura, tudo cozido e ter que ler esse relato, convenhamos minha querida, é mesmo muita maldade. Putz !!!!!!

Abraço

Waldemar

Mauro Castro disse...

Bons momentos à mesa...legal.
Quanto à questão colocada no comentário lá do Taxitramas, que sucitou outro comentário da Sílvia: acho que as angústias que os passageiros trazem para meu táxi me ajudam, de certa forma, a relativizar meus próprios problemas, ver que não são assim tão grandes.
Há braços!!

São disse...

Meu DEus, a minha dieta caiu pelo declive da gula!!
Aproveite bem esses momentos, linda!
Feliz final de semana.

Clarice disse...

Waldemar, agora que você fez esse chororô, se puder comer peixe, cozinhe sem fogo. Só no limão(esprema limão sobre fatias finas de peixe, deixe descansar uns minutos e mangia!). Fica delicioso e não usa sal.
A gente sempre paga pelos churrascos de antigamente. Fazer o quê?
Melhoras e continue firme na dieta. Depois vais voltar a um bom prato.
A comida foi só uma desculpa para enaltecer bons momentos com o filho e lembrar da infância.
Abraços.

Mauro, é uma bela maneira de fazer terapia!
Essa vivência quando bem aproveitada vale por milhões de conselhos e livros, não é?
Abração.

São, comer só um pouco de cada coisa é a melhor educação alimentar que existe. Não vi ninguém fazer dieta radical que tenha dado certo.
Beijo e não desista. Você consegue.
Belo final de semana para você.

Cristiane A. Fetter disse...

Comida e emoções, lembranças, tudo junto não é?
Também estou na luta para organizar tudo em casa prateleira.
Beijocas

Helô disse...

Clarice, que lindo! Meu relacionamento com meus filhotes é muito bom (tanto que eles ainda não sairam do ninho:)) mas é com o Marcelo que eu tenho cumplicidade. Essa cena de mãe e filho dividindo uma refeição é uma das que mais aquece minha alma.
beijo enorme!

Clarice disse...

Cristiane, eles crescem tão rápido, você vai ver! Chega uma época em que ir , no caso, vir , à casa da mãe é só uma fugidinha pra almoçar.
Beijos a vocês.

Helô, tem fases, não é? Eu que temia que depois do casamento se criasse uma distãncia, preciso confessar que temos conversado muito. Ele é caladão, mas sempre fomos muito francos e conseguimos conversar sobre tudo.
Esse almoço foi especial, porque estávamos os dois como há muito tempo fazíamos: um esquenta o almoço e prepara os bifes, enquanto outro põe a mesa e tempera a salada.
E a conversa correu solta. E a comida frata, felizmente.Êita bocão que tem esse menino e não engorda.
Abraços.