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9 de ago de 2007

Álbum de Saudade

Meu pai gostava de cantar.Tinha uma voz linda. Voz que só se ouvia em festas, churrascadas, encontros com amigos, festas de igreja. E depois de algumas cervejas.

Só ouvia meu pai cantar dentro de casa por ocasião do Natal, quando era costume a gente se reunir em volta do pinheirinho, apagar todas as lâmpadas da casa e acender as velinhas, que ficavam com um toque mágico. Então ele soltava a voz. Afinada, rude e muito forte, resultado de excelentes exercícios respiratórios, que ele praticava com seu trabalho muito pesado e cansativo.
Gaitano ou “Tio Caita” era muitas vezes a alegria das festas, porque não só cozinhava muito bem, mas puxava as músicas italianas.

(Meu pai é o que está jogando)

Perto de nossa casa existia um clube. Modesto. Coisa de cidadezinha de interior. Quando aos sábados à tarde ou domingos, ouvíamos o coro de músicas italianas e a voz de meu pai se destacando, minha mãe sorria.Então a gente sabia que meu pai chegaria alegrinho, de olhos brilhantes, às vezes dizendo algumas brincadeiras, ou sentando para tirar os sapatos, porque bebera alguns goles a mais e não garantia o equilíbrio. Chegava mais tarde do que de costume e dormiria mais cedo. Cansado de cantar.

Ele cantava aquelas músicas italianas que viraram sucesso depois de algumas novelas(com sotaque duvidoso). Cantava com sotaque verdadeiro. Porque era filho de italianos. De uma família de mais de 10 irmãos. Que ficaram órfãos de mãe muito cedo. Acho que tinha 10 anos quando a nona Marina morreu de doença ruim.

Deve ter sido muito pesado para meu pai e seus irmãos verem aquela italiana forte, que cuidava dos filhos e da roça, sofrer calada todas as dores do câncer e deixar tantos filhos, alguns ainda muito crianças(4, 5 anos). E quando eu tinha 4 anos, o nono Ricardo também se foi. Também de doença ruim. Meu pai carregava a tristeza disso no olhar. No silêncio. Nas rezas. Na devoção a Maria.

Meu pai não era de muitas palavras. Mas as soltava com melodia.

Cantava durante a missa. De modo mais comedido, mais discreto. Não era hora de se exibir. Cantava quase de dentes cerrados.

Depois de sobreviver a um derrame, quase não falava, mas sempre que era provocado cantava, mastigando um pouco as palavras. A melodia saía certa, perfeita. Assistia missa na TV, em silêncio nos últimos anos. Já não cantava mais. As músicas ficaram modernosas demais. Novas demais pra ele.

As músicas que ele mais cantou nos últimos tempos foram as de aniversários. Dos dele, de minha mãe, dos filhos, dos netos. Os olhos dele por alguns momentos brilhavam e ele fazia cara de criança encantada com a pequena festa. E quando terminavam os vivas e aplausos, olhava para nós, conferindo para ver se tinha acertado as palavras, esperando aprovação. Como se sempre fosse a festinha de aniversário dele. Sempre havia aplauso para aquele esforço.

Eu vi meu pai chorando algumas vezes. Porque ele era muito homem. Ele tinha coragem de se indignar, de chorar, de sentir toda a dor do mundo por ter sido privado de tantas coisas em sua infância, na juventude e depois de adulto. Mas em algum lugar de meu cérebro está um álbum de imagens e sons de meu pai cantando. Com tons que denunciavam as paisagens que ele trazia no sangue.

(No dia de meu batizado. Pobre, mas de fatiota!)

E eu sigo a sina com prazer. Canto todos os dias. Saio da cama com alguma melodia que aparece do nada(?) e dura alguns minutos.E durante o dia canto o que me inspira. Não só italianas. Muitas vezes em voz bem alta, assustando os gatos. Porque eu adoro cantar. Por mim e por ele. Que, se existe céu e se existem anjos, deve fazer festa com eles para ensinar a cantar músicas italianas.




1)Fico devendo La Verginella, da qual só encontrei a letra e não a cantoria. Era uma das mais cantadas. Se alguém tiver, aceito e agradeço.

2)As fotos são de meu álbum.

11 comentários:

CastroBruna disse...

OI!!
querida, estou passando aqui só para avisar q a 2ª parte de 'no mar e na terra' está l´no brunaldinha!!
to passando rápido pq tenho q sair para estudar!! deps volto com mais calma para ler o post!!
bjão!!
BUH

W.Henrique disse...

Ah...como é bom a gente lembrar coisas boas e que marcaram a nossa vida. Reminiscências.....isso é bom demais mas às vezes dói e dói muito. E as fotos ? As fotos nos trazem recordações imorredouras. Ao ve-las sentimos sempre aquela pontinha de saudade no nosso coração. Que bonito, Clarice, recordares tudo isso. Dá vontade de vasculharmos as nossas gavetas atrás daquelas fotos já amareladas pelo tempo mas ainda tão vivas em nosso coração.

Um abraço

Waldemar

Clarice disse...

Bruninha, como já conversamos no MSN, você está cada vez melhor. Mas pare de correr, menina!
Parabéns pelas notas!

Waldemar, obrigada. É um misto de dor e alegria por ter tido a chance de viver momentos assim. Meu pai não estudou muito, mas tinha uma sabedoria da qual eu soube aproveitar, principamente a alegria, mesmo nos piores momentos.
Abraço.

cap disse...

Cantar sempre afasta os maus pensamentos. É também um dos meus passatempos preferidos (mesmo se não arrasto uma legião da fãs atrás, eh eh).
Abraço.

Anonymous disse...

Li seu post, no final já com lágrimas nos olhos.

Bjs, boa semana.

Ângela

Sêmen de Gargalo disse...

Já diz o ditado que triste é quem não tem histórias pra contar. Você tem tantas e esta foi a mais bonita de todas até agora.

Aloha! Namastê! Sawabona!

Clarice disse...

Cláudio, eu sou cantora de chuveiro, mas não posso reclamar. Já ouvi mais desafinados que eu! Abraço.

Ângela, um abraço carinhoso.Beije seu pai por mim.

Sêmen(um dia ainda descubro teu nome!):somos feitos de histórias e tenho a mania de preferir lembrar de coisas boas.Obrigada por ser tão generosa.
Um beijo. Namastê!

Susana disse...

Fatiota....essa palavra tão singular ouvia do meu avô, que fez tanta coisa na vida e uma de suas últimas artes era a alfaiataria. Adoro fotos antigas!!! Acho que perdemos um pouco da beleza da fotografia com a rapidez do registro fotográfico dos dias de hoje, tanto quanto a elegância no vestir. Lembro que quando éramos pequenos, havia toda uma "preparação" no registro das imagens familiares. Talvez por isso essas fotos mais antigas sejam tão nostálgicas. Um abraço.

Clarice disse...

Susana, programa incomparável para dias de chuva, desde criança até os dias de hoje:olhar fotografias. Lembrar detalhes ligados a elas. Reparar nas roupas, nos rostos, nas paisagens...Que gostosura!
Abraço.

Anonymous disse...

La Verginella, está postada na página:http://italiasempre.com/verpor/laverginella2.htm
Há a letra original com tradução e música.
Espero que a ajude a matar um pouco a saudades do seu pai.

Clarice disse...

Anônimo, valeu! Vou criar um link no post.