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6 de jul de 2007

Chega de Merda!

Faço o possível para respeitar as opiniões alheias, sejam elas de amigos ou não. Mas isso não quer dizer que eu tape meus olhos ou perca a memória, quando leio o que alguns deles escrevem ou ratificam e espalham por aí. Xingar pode ser um jeito fácil de chamar a atenção, mas quem tem telhado de vidro...

Até o final do texto vai ficar mais claro, espero. Quem não gosta de textos longos, procure o Copy & Paste. Lá tem resumos bem-humorados, xingamento, textos revoltados, e muita merda também.

Então, dá licença que agora quem vai ligar o ventilador sou eu!

Começou com a distribuição das capitanias hereditárias, passou pela escravidão, dizimação de indígenas, apropriação de terras, algumas baianadas, garrafadas, esfarrapados, algum idealismo e o bolso enchendo, o bolso enchendo, tanto aqui como na terrinha além-mar.

Deu-se melhor quem roubou mais, apropriou-se mais e matou mais. Terras a perder de vista, filhos virando doutores e continuando a saga. Vieram os fugidos das guerras e alguns acordavam de manhã, de madrugada, pegavam no cabo da enxada e só descansavam depois das estrelas aparecerem. Outros continuaram roubando, apropriando-se, virando doutores, continuando a saga.

Muitos anos depois a roubalheira continua, sim. Isso é terrível? SIM! Nas concorrências, no armazém, nos Bancos, nos transportes, nos camelôs, nas farmácias, na mercadoria sem nota fiscal, na liberação de empréstimos, na obtenção de favores por conta de amizades, na manutenção de status por conta de partidos políticos.

E a roubalheira continua...

Enquanto isso, os menos privilegiados, que racham os pés andando 20 quilômetros para encontrar água para fazer comida, ou vêem todos os anos os mirrados grãos secarem na esturricada terra, os poucos animais morrerem à mingua, as crianças só viverem 5 anos, assistem o aparecimento de mais latifúndios(herança das capitanias, lembra?). São os que recebem mais favores para a irrigação, roubam mais terras e com aqueles administradores de bancos que favorecem por amizade, continuam lucrando e comprando mais terras a preço de banana(da comprada em sacolão).

E os favores continuam. E a roubalheira continua. E os trabalhadores braçais, daqueles que a gente nem lembra enquanto come pão, carne ou uma salada de alface, continuam suando, enquando a turma de doutores, fica à frente de computadores, xingando a mãe de todo mundo, porque não concordam com o que assistem na televisão.

Eu também não concordo, repito: eu também não concordo, e faço minha parte para mudar alguma coisa, pelo menos perto de mim. Mas daí a dizer que os que recebem alguma esmola ou benefício social devem morrer de fome, sem assistência médica, sem água, sem qualquer conforto, para que eu não precise pagar impostos(excessivos, eu sei, não sou alienada!) é pedra grande demais na minha garganta.

Espera aí! Desde a hora que eu levanto de manhã, sou uma privilegiada. Porque tive acesso a escola, a livros, a roupas, a calçados, fui poupada de ter que ir capinar(alguns privilegiados vão ter que ir ao dicicionário para saber o que é isso) ou carregar sacos de mercadorias, ou virar indigente, empregada doméstica, ou morrer antes dos 5 anos. Meus pais conseguiram trabalho, foram atrás dele, nunca esperaram favores, nunca pediram favores. Meu pai era motorista de caminhão, dos que vão até a roça buscar porcos, milho, feijão. Minha mãe saiu de casa ainda moça para dar aulas durante 8 horas por dia, num lugar muito mas muito pequeno. Privilegiados.

Até a hora que vou deitar passo por pelo menos outros sessenta privilégios, inclusive este que me permite esccrever num teclado e ver as palavras aparecerem numa tela.

Então, por favor, não me venha dizer que desistiu do país onde nasceu, porque vê injustiças e roubalheira. Não me venha encher os olhos com mediocridade e hipocrisia depois de obter emprego através da política(a mesma que rouba, lembra?) e passar vários anos recebendo salários pagos por pessoas que recolhiam seus impostos, muitas vezes negando aos seus familiares um livro ou uma roupa que bem necessitavam. Até comida.

Eu lembro bem do tempo em que trabalhava num Banco o que ouvi de um colega que havia visitado um agricultor atrasado em suas parcelas de empréstimo. Ele foi encontrado com a família reunida em torno de um tacho de água onde ferviam algumas abóboras e batatas doces, que era tudo o que lhe restara para dar aos filhos, porque o Banco onde eu e mais uma porção de gente trabalhava havia tirado dele tudo. O Banco que pagava o meu salário e de mais uma porção de gente. Nem você nem eu perdemos o sono por coisas assim, não é? E isso continua acontecendo desde sempre. Não é novidade .

Não endosso nenhuma merda feita por quem quer que seja, ou de que partido seja, não sou do PT nem de partido nenhum, mas é muito fácil negar ajuda quando se dorme de barriga cheia, com cobertores, de banho tomado, sem pensar se sua casa será tomada ou se a seca levará mais um de seus filhos.

Nós somos privilegiados, SIM! E devemos, SIM! a esses miseráveis(não aos vagabundos sem vontade de trabalhar, tipo MST e similares) estejam no norte ou no sul.

Enquanto vocês desistem do país onde nasceram, tem gente fazendo, anonimamente, virando noites, dando do mesmo pão que seus filhos comem aos que nunca tiveram privilégios. Criando oportunidades. Virando a mesa, acusando mas oferecendo alternativas. Fazendo e não apenas criticando ou desligando a tv quando mais uma roubalheira(de todos os partidos, não esqueça) aparece no noticiário.

Esse círculo de privilegiados, do qual eu faço parte, deveria se olhar no espelho e ter vergonha. Não de seu país. Mas de seu passado, por não ter dividido, por não ter protegido, por não ter escolhido bem, por ter roubado e mamado o quanto podia e agora que é obrigado a dividir, reclama. Essas mesmas pesssoas que propagam a generosidade em mensagens e textos, que mandam mensagens de Natal, desejando PAZ, LEALDEADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE, deveriam sentir vergonha todos os dias. Não de seu país. De sua atitude de boi de boiada.

Muitos de nós só estão vivos porque alguém lá atrás surrupiou, roubou, tomou, fez valer a influência política ou de parentesco. Muitos de nós só estudaram porque outros 200 ficaram sem escola. Muitos de nós só comem porque outros 200 não têm o que comer.

Desistir de seu país porque tem muita coisa por mudar e fazer? Talvez seja melhor desistirem de si próprios pela cegueira, pela falta de humanidade, pela hipocrisia.

Vai assim, sem correção, sem cortar uma só palavra. Se isso resultar em mais indignação, ótimo! Se acertar em algum sócio deste nosso clube de privilegiados, que aponta o dedo mas não faz muita coisa para mudar, ofenda-se. É direito seu. Eu só estou espalhando a merda que entra na minha caixa de mensagens quase todos os dias.

6 comentários:

Anonymous disse...

Temos sangue correndo nas veias hein menina? Vamos sim fazendo a nossa parte e muitas vezes incomodando e até pagando caro por isso! E que sejam ligados mais ventiladores, que mais gente acorde e se lembre de fazer... fazer... isso...apenas fazer ...
bjs perolados
Vc é uma amiga pra lá de especial que me manda muita energia e alegria e ajuda meus dias brilharem mais.
Obrigada por tudo!
Mara Regina
Sorocaba-SP

Anonymous disse...

Nossa amiga que desabafo rs, assim as pessoas vão ficar com medinho de te mandar e-mails hehehehe brincadeiras a parte, o assunto é muito sério.

Bjs e bom final de semana.
Ângela

Susana disse...

Depois dessa leitura, sinto-me medíocre quando tenho medo de perder meus "privilégios". A vida tá tão corrida que a gente inventa desculpas pra não olhar as barbaridades dos vizinhos. E o pior de tudo é saber que vivemos TODOS em cima do arame. Um grande abraço e vira esse ventilador pra lá (...brincadeirinha)!

Sêmen de Gargalo disse...

Clarice, com o tempo aprendi que essas pessoas que estão sempre nos mandando e-mails de revolta com a situação de nosso país e que se mostram tão indignadas com tantas coisas que acontecem bem debaixo do nosso nariz, são as mesmas que se mostram menos dispostas a mexer um músculo que seja pra mudar essa situação.
Espero que seu desabafo não tenha sido em vão, que seus amigos possam entender seu recado e passar da revolta á ação.
É isso aí, menina! Se os outros não fazem, continuamos fazendo alguma coisa ou pelo menos tentando. Ficar de braços cruzados apenas bradando os podres já ultrapassou os limites do inaceitável.
Vamos votar conscientes, vamos cobrar de nossa imprensa e de nossos políticos o que tem que sr feito.

Beijinhos

Aloha! Namastê! Sawabona!

W.Henrique disse...

Tá bom ,Clarice. Eu sou sincero e confesso que, num de meus e-mails, também "desisti do Brasil". Pura força de expressão. Ao "desistir" de minha pátria eu quis dizer que desistia da cretinice, roubalheira e toda espécie de aviltamento à nossa gente. Um dia, já muito distante e que eu nem gosto de lembrar ,eu mesmo, por ingenuidade e idiotice mas sobretudo por LEALDADE fui uma unfeliz vítima desses desgraçados sem pátria e sem moral. Sofro, até hoje, as consequências disso. Se fui mal interpretado, perdão. Minha intenção não foi ferir o meu país, que eu amo de paixão mas aos assaltantes e vagabundos que o dirigem.

Waldemar

neu disse...

ó jente...
É o sangue italiano!
Só não deu para ver os movimentos das mãos.
valeu amiga.
neu