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20 de mai de 2007

Por trás do espelho


"É desconcertante rever um grande amor..."



Eu não quero que tua memória de mim se altere.


Não quero que me vejas tão diferente da mulher cheia de entusiasmo, de sonhos, crédula e apaixonada pela vida e por tudo, que eu carregava dentro e fora de mim.


Eu não quero que conheças o que o mundo fez de mim e o que eu fiz de mim, depois que deixei de ser a mulher que povoou teus sonhos e dias por algum tempo.


Eu não quero que conheças o que mudou em mim. A poucos eu entreguei o conhecimento de minha essência. Quero que a guardes como era.


Eu não quero ler nos teus olhos a surpresa de ver a mulher de meia idade, que tomou o lugar da jovem a quem fizeste se encantar pela aventura. Não foi a mulher madura que amaste. E eu não quero que a percas.


Eu não quero adivinhar no teu abraço minha dor por ter deixado fugir o amor tantas vezes, por tê-lo entregue tantas vezes em endereços errados.


Eu não quero falar das dores que tivemos, cada qual no seu caminho.


Eu quero que meus espelhos continuem a refletir quem éramos.


Eu não quero lembrar do que não gostavas em mim, nem do que faltou para te amar para sempre.


Eu não quero passar a limpo nenhuma poesia.


Eu não quero que sejamos dois peregrinos de meia idade juntando lembranças balbuciadas, encabuladas, quem sabe contagiadas por outras, sem ter nem mesmo a certeza de que fomos nós dois que fizemos aqueles dias tão lindos de que te lembras.


Eu não quero perder a ansiedade que vinha com teus abraços.


Eu não quero ter que fugir de nenhuma lembrança.


Eu não quero que me adivinhes igual nem diferente.Eu já não sou povoada de sonhos e o que carrego em mim são dias e perfumes muito bem guardados. São promessas de amor não conjugado. São retalhos de risos. São esperas sem fim. São poesias feitas na pele.


O que eu poderia mostrar de mim em meus olhos me faria sofrer. O que eu poderia deixar que lesses em meus olhos poderia somar mais um sofrer aos teus. Poderia apagar um pedaço de minha vida e da tua.


Porque se nossas lembranças mudarem, não seremos mais nós. Apenas duas pessoas que já não são.


Então esperarás por mim, olharás o relógio e espiarás a rua. Tentarás adivinhar em cada carro minha nova imagem.


Mas eu não irei.


E ao entardecer, levarás nossas lembranças de volta para tua casa. Cristalizadas. Eternas.


Fpolis,18/05/2007


Foto: Detalhe da Praia das Palmeiras, Florianópolis, SC, by Clarice, maio/2007

10 comentários:

Carolina disse...

Nossa, Clarice... nem sei o que dizer, mas me trouxe lagrimas aos olhos. Toca tão fundo tudo isso...

Anonymous disse...

Bom dia, que linda.

Boa semana ;)

Ângela

W.Henrique disse...

Que é isso, Clarice ? Foi linda mas sentí tanto nostalgia quanto saudade nesse soneto (ou sería um "desabafo" ?)Mas as palavras são realmente muito bonitas, o sentimento é tocante e parecem vir lá de dentro, do âmago do teu coração.
Um beijo

W.Henrique

Susana disse...

É por textos como este que continuo "te lendo". Acredito que estás certa na tua decisão. Algo parecido acontece quando voltamos, depois de um longo tempo, a lugares em que vivemos e constatamos que as sensações que sentíamos não serão revividas. Já as boas lembranças ficarão eternamente dentro de nós.

Clarice disse...

Carolina, obrigada pelo comentário e que bom saber que você é sentimental como eu.
Um grande abraço

Ângela, sabe como é, dias e dias de chuva, a gente acaba escrevendo e raspando umas lasquinhas do coração.
Beijo, linda!

Waldemar Henrique, não é bem um soneto, nem um desabafo, mas uma decisão difícil. O cara que me levou a escrever isso é muito especial e será sempre.
Vai ver, depois de tudo, eu ainda tenho coração. Ai! Ai!
Beijo.

Susana, responsabilidade dobrada tendo você como leitora.
Essa sensação de algo perdido eu senti também quando voltei à casa onde cresci, depois de 20 anos. É exatamente como você descreve.Fica o bom.
Beijo.

neu disse...

Clarice... Lindo, lindo
Continuas a mesma que "conheci" desde Seara. Tem hora que mesmo em poesia; machuca, mas continuas a mesma criança de tempinhos atraz.
neu

Anonymous disse...

Fiquei curiosa =^.^=

Angel

Clarice disse...

Neu, quem tem amigos como você tem a certeza de poder contar com um coração sempre aberto. (Não tão menina, mas sempre querendo ser feliz.)
Beijo.

Ângela, a curiosidade matou o gato!
=^.-

CarolBorne disse...

Oh, meus deuses! Estou aqui, às 12h58, quase às lágrimas, me identificando com cada palavra!
Lindo demais!

Clarice disse...

Tita, o que o amor tem de comum todas as vezes que surge é a saudade. As boas lembranças nos fazem melhores.
Mas não chora, não! Liga pra ele!
Teu blog é pura sensibilidade.
Obrigada por me mostar por lá.(Oh, Zeus! Preciso atualizar minha lista!)
Beijo e bom final de semana.