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13 de nov de 2006

Aluga-se(um dia desses)



Ela tem uma relação de cheques já despachados, por ordem de data e vai riscando, cada vez que um deles aparece no extrato.

-Mãe do céu! Que isso não acaba mais!

Aos poucos, com o benefício da greve dos bancários, eles vão aparecendo. O orçamento já passou a ponte faz tempo!

E ela a fazer contas. E a comprar. Que faltou veda-rosca, senhora. Depois um adaptador de cano, silicone, mais cimento, mais argamassa, mais um não-sei-quê que ela nunca ouviu falar. E tudo na ponta do lápis, pagando a mão-de-obra conforme estabeleceu no contrato, que a revista recomendou e ela seguiu à risca- o que é uma maravilha, porque quando enxergam o papel eles arregalam os olhos e vão seguindo as letras com o dedo, pra não se colocar em enrascada.

Mas que seja tudo pela grandeza dessa obra adiada por mais de vinte anos. Que começou em agosto deste ano e só Deus sabe quando irá terminar. Porque ela não se rende ao primeiro orçamento do pintor, que é o azulejista goiano. Que enlouqueceu. Onde já se viu cobrar mais pela pintura que para derrubar paredes e encher tudo de reboco, azulejos e piso? E ela sem almoço até 3 horas da tarde.

Depois de gastar a última folha de cheque comprando tintas na loja do amigo (que deu orientações valiosas, desconto e entregou em casa sem cobrar frete), tem que mexer no orçamento com cuidado. E está ficando tão bonitinho que vender já está quase sumindo dos planos(para alguma coisa serve ver tanto programa de decoração na TV!).

Primeiro é preciso alugar para recuperar todo esse desgaste e gasto, sejamos razoáveis.
(Pensando melhor, tem um pátio seguro, gostoso, piscina, jardim, a vinte minutos de qualquer praia, que quase a faz pensar em...deixa prá lá. Tem que alugar mesmo!)

Ela, que sempre viveu a vida e não o dinheiro, sorri e (se) espanta (com)esses pensamentos tão materialistas. Dia desses encheu os olhos d'água, lembrando do tempo em que precisava de amigos para trocar cheques ir levando a vida até o final do mês. No tempo em que um empréstimo na "caixinha" cobria o outro, que era o jeito de pagar o colégio do filho.

Só pobre chora de alegria. Já viu rico chorar de alegria?

Eles lá brigando para saber se será de 5% ou de 16% o aumento e ela na fila do caixa, depois de escolher fechaduras, espelhos de tomada, lâmpada. E o rapazinho se desdobrando, solícito, gentil, ansioso, como só são os que estão começando a trabalhar e gostam do que fazem. Confere duas vezes, sorri da brincadeira da senhora que pergunta tudo, que quer ver a marca, a caixa, os componentes. Menino atento, mostrando o suor da preocupação nos primeiros sinais de bigode. Segurando a cestinha. A senhora não lembrou de mais nada que precise? Preciso caprichar, que ainda sou estagiário. Se estiver muito pesado para senhora eu posso levar até o carro, não se preocupe! (Paulo Henrique, guardem este nome, na loja Milium.)

A primeira quadra foi fácil. Depois de virar a esquina os ombros já reclamavam. Mas que m...! Por que não pediu pro garoto ir com ela? E a sacola maior escorrega. A bolsa quase cai do ombro. O rapaz estende a propaganda e sorri quando vê que não ela não tem uma terceira mão. E bufa! Cristo! Ainda tem a escadaria para enfrentar. O casal passa. A mulher, quase-menina, carrega um bebê dormindo. Cor-de-rosa. O pai percebe o olhar e sorri orgulhoso! Quanta coisa a gente deixa escapar enquanto caminha por aí! Mais uma quadra e quando o estacionamento já parece um oásis, ela bufa e se rende ao manobrista:
-Quem precisa de academia depois disto?

8 comentários:

Susana disse...

A pior coisa de toda reforma é a "espera". Esperar para reunir a grana necessária pra essa aventura, esperar pra conseguir uma breja na agenda daquele pintor maravilhoso que a tia guardou o número do telefone não sei onde, e a pior de todas: esperar a chegada do material de construção. A última vez que me meti nesta encrenca foi por causa do lugar onde atualmente moro. Comprei o imóvel com a intenção de apenas reformar o banheiro e quando me dei por mim até a cor das portas não eram mais as mesmas.Dá um trabalho, ô se dá!!! Mas vale a pena. Coragem, acredito que o pior já passou. Horrível seria se vc decidisse começar agora, pertinho do Natal. É mais fácil conseguir um jantar com o George Clooney (ai,ai,ai) do que o telefone do pintor que minha tia acha fantástico.

Dalva Maria Ferreira disse...

Claire do céu! assim a coluna não aguenta, amiga! Quer ajuda, é só falar... praia e cervejinha gelada por minha conta, OK? E sorvete, se fizer calor.

Clarice disse...

Susana: o primeiro a gente nunca esquece. E pensa que no segundo vai ser mais fácil porque já passou por todas as agruras. Que nada! Eu hoje tive que disfarçar o espanto quando uma dupla de pintores(orçamento, só orçamento) pediu meu "imeil" pra mandar a informação.
Agora falta pouco:trocar algumas portas e pintar de cabo a rabo.
Eu quero mesmo é pegar o infeliz que soldou a torneira no mármore com durepox!
Beijo, gauchinha!

Dalva: e depois daquilo tudo, um papo mais que gostoso(dolorido para você só com três dedos). Mas dormi feito pedra até o raiar das seis, que hoje foi a hora que comecei a "zumbear".
E como estão suas mãos hoje?
Ah e eu garanto a cadeira de praia!
Beijocas mil!

Ângela disse...

Xiii esse feriado vai ser longo para você, com essa mudança toda!

Aguenta firme! Bjs

Clarice disse...

Ângela, a mudança já passou, felizmente. Feriado foi de papo para o ar. Agora é contar os trocados até o final do mês.
(E esse Atlético, hein?)
Beijocas.

Anonymous disse...

Uauuuuu..
Ninguem avisou que o "furacão" Clarice, iria passar pela Ilha !
Pelas fotos dá para ver a força e coragem.
neu

Clarice disse...

Neu, háháhá! Eu estou mais é me sentindo uma brisa. Acho que a encrenca maior se foi. Outra dessas só daqui a 20 anos e olha lá!
Bjs

Raquel disse...

E não é assim mesmo?
Amei!
bjs